Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

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No Útero das Sombras
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( Ao poeta Gérard de Nerval )
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Imenso lodaçal
é o que nutria a vara de porcos que invadia o silêncio

a horda que rasgava a necessária quietação
nas noites enfartadas de larvas
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Nas dobras do mato-memória
em horas urdidas com fios de danação
surgia sempre uma jovem bugra meio pálida
dançando como
-------------------------verbi gratia,
uma feiticeira abatida
ou uma ninfa esquálida de tez aperolada

: daí a urgência do silêncio
: a urgência de absorver a brisa fresca da miragem
- único viço na treva hirsuta
*
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Foi do centro do axioma
que desafiei todas as regras
duvidei de qualquer doutrina
-------------------------pois
de todos os lados vinham os porcos e sua gritaria
vinham os porcos e sua bandalheira em corja
*
*

Mesmo a Nephila
- a aranha de pernas em rosa dos ventos
sobre uma teia de zinabre -
não mais era que uma casca fustigada e entorpecida

E mesmo a hera que subia
pelas coxas
não mais era que monera.
*
*
A diminuta haste fragilizada da Drosera
e as gavinhas da escandente
-------------------------Nepenthes
queimaram-se na frieza do calor ausente
junto com ela: a bugra.
E eu

*
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Domingo, 21 de Junho de 2009

DERRIBAMENTO

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Exício
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( Aos poetas Rodrigo de Haro
& Victor Sosa )
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Amebas rastejam na pele
corujas vomitam
os
oss
os
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Que rio remar
quando as sombras trepanam os olhos
& toda extensão da provável doçura ?
que praia correr
se uma voz, na noite das lápides
ecoa nas faces do limo & puxa o fantasma do espelho ?
*
*
[ Ó lêmur do gelo & das poças
que dá forma
ao chorume dos mortos:
solve o teu sopro de visgo ]
*
*

Reinventa o breu o betume
o amianto o asbesto, a poeira o lamaçal
& o olhar camundongo da fresta
espreita a ânsia de carícia
*
*
[ Ó Manco Cápac
- de Inti & Mamma Quilla -
da cordilheira, das pedras do Vale de Cuzco:
que tua luz a tudo doure ]
*
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Quanto desvelo requer a dieta
quando frio é o sangue
& a linfa rala ?
*
*

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

SINFONIAS

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Concerto para Vespas e Calangos
*
( ParaVictor Barone
Bea “Compulsão Diária”
& Marcos Pontes )
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Seria ali
na crosta dura que restou
da erosão do sedimento
*
naquele claro
entre a borda do torrão e a rama suja
onde, decerto, haverá vespas
escondidas
nos xerófitos espinhentos
*
e uma fêmea primal e semi-ereta
desgarrou-se do bando
com seu infante de olhar medroso
pra se resumirem a fragmentos
de epífises, de arcadas
de fêmures
e de ílios
*
*
Lá no áspero daquele pequeno palco improvisado
-----------------que afronta a crista do Ngorongoro
, é ali que eu poria
um maestro afetado a reger
com sua batuta de fíbula
uma orquestra de surdos
-----------------cujo spalla é uma ruiva de ouro
-----------------bipolar e anoréxica
*
*
De resto:
*
escaravelhos
rolando o mundo
Borodin na savana
e o ocaso sangrado
por leões
*
*

Domingo, 10 de Maio de 2009

APETÊNCIA

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O Mexilhão
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( À moça de copo na mão )
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Úmida, rosada
incógnita
---------------ensimesmada
---------------nas franjas
de um silêncio entre valvas:
*
broto de um ramo distante
guardião do compasso
---------------da maré de quadratura:
*
como tornastes
um quase obsceno
refúgio
a exalar a fragrância do cio
e do sal ?
*
que tanto almejaste
em vida
nas noites de preamar
quando fugiam-te
os sumos
nas águas da
continuação ?
*
*
Túrgido grelo do tempo
embebido nas dobras
de um paramento
---------------de vulva:
*
olhar-te assim, amanteigado
---------------e ardente
desperta a saliva na boca
*
---------------
traz o encanto
---------------da volúpia
*
---------------e uma viva memória
---------------agarrada na rocha
*
*

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

ESPECTROS

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O Troglodita dos Pântanos
*
( Para Silvia Mendonça, L Rafael Nolli
e F@, de Portugal )
*
*
O troglodita dos pântanos
deixa sua cava
pra bem saber
----------------que o que governa o mundo
----------------são coisas voláteis
*
são almas de campos
----------------& nuvens
*
sol, pensamentos
*
arrepios & cópulas
*
*

Com as artérias íntegras
perde-se na porosidade da terra
----------------nas poças & no mimetismo das rãs
*
*

Cada minuto lhe cai folha verde
*
: o que promove o giro
tem sempre
----------------um dedo
----------------do
----------------insondável
*
*

Seus deuses são de pó
& suas mulheres
frágeis
plumas
de vidro
*
*
Ele as lambe
lambe
com um pé na pedra
e o outro na água
&
assim
elas se desdobram
como os tentáculos
de uma sépia
*
para dar-lhe filhos
fortes
brutamontes, sonhadores
mesclados
de
terra
*
&
também
dão-lhe filhas
lindas
lisas
cinturadas
& hábeis
nas mãos
*
*
Tudo que é seu
----------------leva um remate de faiança
*
----------------um esmalte
*
a despeito da sombra monstra
----------------que o acompanha
à luz da tocha
ou do sol
*
*
Ele
não se lasca
co’a sombra da morte
*
não planeja seu devir
*
resolve seus apertos
com parcimônia
, sem volteios
ou muito
pensar
*
: um grito
: uma pancada
*
& é nó
desfeito
*
*

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

CONTRASTES

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A Mulher Como as Águas
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Supus ser possível
---------------transpor
-------------------------todas as margens
-------------------------dessa água
-----------------------------------todas as
-------------------------quedas e remansos
*
-------------------------a dança da espuma
-------------------------a se esquivar das rochas
*
-------------------------as rochas
*
-------------------------o filete das bicas
*
-------------------------o olho do remoinho
-------------------------& os colóides
-------------------------suspensos
*
*

Reputei exeqüível
---------------quantificar
-------------------------os sais
*
---------------qualificar
-------------------------o flanar do plâncton
-------------------------na lua da pele
*
-------------------------os segredos pelágicos
-------------------------que deixaram cicatrizes
-------------------------no baixo-ventre
*
*

Quis compreender
---------------os arcanos dos bentos
-------------------------nos taludes & nos abismos
*
-------------------------onde
-------------------------- havendo luz -
*
-------------------------uma raia imprimiria
-------------------------sua sombra
*
*

Também cogitei
---------------apreender
-------------------------o espaço entre as algas
-------------------------por onde os argumentos
-------------------------meneavam
-------------------------caprichosos
*
*

Não consegui
*
*

Por isso
---------------não te espero mais
*
-------------------------nem aqui
-------------------------nem na chuva
*
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

TEMPO

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Coisas do Tempo
*
( Ao poeta E. M. de Melo e Castro )
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O tempo
entrou pelas portas
e intimou-me
a seguir com ele
até a falésia e a praia
na manhã de chuva
*
*
Eu, afeito a abstrações
não me intimidei
*
- sair com o tempo
-----------------é não ter
-----------------que poupar delírios
*
*

Perante uma eventual
filosofia
vesti minha nudez meio esquecida
e fomos em pêlo
na contraluz do dilúvio
*
*

Três mulheres
carregavam filhos de sal
que se desfaziam na chuva
*
uma quarta gestava salmoura
*
; escondi-me na amplidão
*
*
Na interface / entre / dois mundos
onde os raios de luz se refratam
-----------------como um bastão
-----------------que vara a água
lembrei-me
d’uma viúva que seduziu-me
numa tarde há muito perdida
e, a sentir o calor de meu falo
sussurrou:
------------------ Otávio ! -
*
quando meu nome era Pedro
*

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Sábado, 25 de Abril de 2009

AFETO

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Um Conselho a Meu Filho
*
( Para Adriana Godoy & Márcia Barbieri )
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A mochila
---------------às costas
e um rio dentro
*
muitas sinas verteram sangue
em busca de uma própria
identidade
*
*

Não, menino
não releves imposições
em demasia
*
a rigidez não te serve
*
não te convém
marchar--------,bater
tantas continências
*

*
---------------
Afrouxa o nó
---------------liberta o rio
que teus olhos foram feitos
pra ser água
*
*

***
*
---------------
Um dia
compreenderás
que cada serra
é um parágrafo na história
da planície
*
e também o vice-versa
, sobretudo
*
*

É com olhos de fuga
que se há de ver o mundo
---------------/ou/
como explicar
escama, pêlo & pluma
sem uma premissa
de libertação ?
*
*

A lógica aos rigorosos
e a ti
---------------a amplidão
*
*

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

VERTIGENS

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Na Trilha do Poço Verde
*
( A meus alunos
em excursão à Serra do Mar.
Abril de 2009 )
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Um ninho com dois filhotes
----------------------------clarões
----------------------------estalidos
& muco
*
*

Do centro da olheira da noite
esquadrinhamos tudo

*
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----------------------------Um pequeno rato silvestre
----------------------------saltita na via das luzes
*
----------------------------& os brilhos afloram
----------------------------das aráceas molhadas


----------------------------dos polipódios
----------------------------molhados

----------------------------das bromélias

----------------------------dos bambus
*
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No sensato silêncio dos grilos
chove indagações e água
*
& tudo aqui dentro
é lampejo / batimento
inquietação
*
*
----------------------------Estrelas
----------------------------sondam
----------------------------dos olhos de um sapo
*
*
_______________
[Obs.: Clique na imagem acima para ver em detalhe o olho do sapo, o qual, aliás, foi capturado, fotografado e devolvido à natureza]
*
*

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

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PESSOAL, ESTAREI AUSENTE UNS DIAS
MINISTRANDO UM CURSO NO MATO
FIQUEM À VONTADE QUE A CASA É NOSSA
A GELADEIRA TÁ LIBERADA.
SIRVAM-SE


Chico
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Terça-feira, 31 de Março de 2009

VISÕES

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Trespasse
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( Para Fernando Py )
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90 barras pretas
---------------grossas
---------------ignóbeis
---------------ferais
trespassadas por linhas tênues
---------------de quejando grau
revestiam a parede do quarto
do esquecido do tempo
*
que
quando olhava
---------------pelos
---------------retículos
infestos
não via tijolos, reboco
---------------mas
um pequeno mamífero
---------------recém-acordado
da hibernação
que se espreguiçava
na porta da toca
---------------e aos poucos
- ainda molengo -
ganhava distância
---------------na paisagem
a escorrer para os rios
*
*

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

ASSOMBROS

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Qahoba Haa: Casa Cadente
*
( Aos poetas Sérgio Medeiros-
tradutor do Popol Vuh para o português-
& Benny Franklin )
*
*

I
Imergi meu corpo
num tonel de heranças
na quilha de uma hora ressonante
----------------------oca hora
do tabernáculo de um molusco
devorador de areia e de vidro
*
*

II
O tempo passa para todos
e abre sulcos
*
*

A vida inteira
imergi minhas amplidões despudoradas
nas fendas de mulheres transparentemente mornas
com dentes nacarados
----------------------que

----------------------via-de-regra
regavam seus quintais com aquavita
*
*

Cheirei de todas as rosas
Provei das gorgônias mais vis
----------------------e agora estou aqui
----------------------neste barranco, velho
a decifrar enigmas
*
*

III
Tantos assombros, mais um:
um mosquito esmagado
nas páginas do Popol Vuh:

bem no ponto onde Hun Ah Pu
e X Balam Ke, os gêmeos Caçador
e Jaguar Veado
puseram os mosquitos a seguir
pela estrada negra
para picar pessoas e os bonecos
de pau
*
*

IV
R Atit Qih / R Atit Zak
( avó do dia / avó da luz )
Bendita demência escarlate
Minhas avós jamais suspeitaram de seus próprios
conselhos
*
*
*

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

PAULO GABIRU

*
*
*
Paulo Gabiru nasceu paulista, mas tornou-se um interessantíssimo cantador e violeiro do interior nordestino. Há muito reside em Bom Jesus da Lapa, Bahia, onde canta o Rio São Francisco.
Certa vez, escrevi um texto sobre ele- que se tornou um amigo desses que a gente recebe na cozinha de casa- e o texto virou encarte de seu mais novo CD "RENASCENÇA".
*
*
Eis o texto:
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Depois de assistir ao último dia da quarta edição do festival de música “Botucanto”, de Botucatu, SP (2007), cheguei em casa e fiquei impressionadíssimo com o CD de Paulo Gabiru, a quem não conhecia. Devo dizer que não hesitei um minuto antes de adquirir a obra, pois sua apresentação magnífica no palco deixou claro que havia uma lacuna enorme a ser preenchida em minha prateleira de CDs e na minha alma de degustador de boa música.
*
O homem é mestre como violeiro e como cantor. Dos "cantadores nordestinos" que conheço, ele é o que tem a voz mais suave, e isso reflete nas canções conferindo um lirismo que transmite bondade, mesmo quando o tema cantado é triste.
*
Esse lirismo suave tem uma força tremenda, parece que a índole doce do cantor enfrenta as intempéries das dores e permanece altiva apesar dos diabos. É o bem que não se acovarda diante dos males e segue em frente espalhando luz. Preciso ainda mencionar a qualidade da instrumentação: não falta nem sobra detalhes; tudo na medida exata. Interessantíssimo.
*
Numa época da tanto lixo "sertanês", que têm livre acesso à mídia e coloca tanto dinheiro no bolso de farsantes aprovados por um público vitimado pelo racionamento de cultura que assola nosso país, ouvir mestres autênticos é não apenas uma honra, mas obrigação moral. Descobrir Paulo Gabiru está sendo cultuar um novo ídolo. Apesar do apelido mirradinho, encolhido, o homem é grande; um Gabiru de estatura mítica.
*
Ele escolhe a dedo seus parceiros. O resultado é uma música extremamente bem elaborada, forte, inquietante e luzente. Visceral ou terna, ela desponta impávida como a nadadeira dorsal de um grande tubarão ao rasgar a superfície dos mares. Paulo Gabiru é o tubarão bondoso e socialmente atento dos interiores, a grande fera das águas do São Francisco.
*
Assis de Mello
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Paulo Gabiru está no Orkut:
http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?rl=mfp&uid=413144105454988819
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=7440552
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Seus CDs podem ser adquiridos diretamente com ele:
paulogabirui@gmail.com
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Discografia:
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Beiradeiro - Músicas: Beiradeiro; Andarilho; Franciscano; Rio Grande; Baião do Outono; Toada do Porto; Conto das Promessas; Dois em Um; Remos e Rumos; Labirintos; Amor a Sangue-frio - todas estas em parceria com Clebert Luiz e mais São Francisco (parceria com Eduardo Barral)
*
Renascença - Músicas: Cantiguinha; Razão; Romaria; Ladainha Profana (com Clebert Luiz); Renascença (com Evandro Brandão); Sete Sentidos (com Clebert Luiz); Cidadinha (com Orlando Fraga); Canto de espera; Avenida Paulista (com Gilson Guarabyra); Amor à Vela (com Jarbas Éssi); Gato; e Barão de Luto.
*
Nobre Barranqueiro - produção que reúne vários artistas
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

ALTURAS

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A Ontogenia do Mito
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Esculpe-te o mundo:
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farol que vara a neblina
, rútilo pistilo no emaranhado das cinzas
*
*

O recalcitrante cinzel do tempo
-------&
-------um obcecado martelo
-------do qual não se foge
entalham-te:
-------flor-de-passiflora
-------em radiosa simetria
*
*

Dão-te forma
-------a partir dos mesmos blocos de minério
-------pelos quais te vences
-------com grampos
-------mosquetões
-------alumbramento
-------e corda
rumo ao silêncio das alturas
*
*

-------É de lá
daquele ponto
onde poucos chegam
-------que
-------- pedra lapidada -
-------propagas teu canto
------------------------de lua
*
*

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

TURBULÊNCIA

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Lubby
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( Um poema de amor
à memória de um pastor
que realmente pregou a humildade )
*
( Para Luisa Mell )


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Na verdade
meu cão
não é um ente distinto

*
-------------ele está em algum ponto
-------------do gradiente
-------------da variabilidade humana

*
----------------------------e certamente
----------------------------entre os melhores
----------------------------de todos os nascidos

*
-------------- pela extremidade mais nobre
da corda
*
*

E só uso o termo "cão"
por ser ele por demais perfeito
e os humanos
foram feitos à imagem e semelhança
de deus
*
; ele não vindica nada
que não vital
e não reclama tal insanidade
*
*
Há vermes
que insistem em me dizer
que morreu, pois teve câncer
*

-------------mas sinto-o aqui
----------------------------agora
---------------------------------e a qualquer hora
por isso deixo os verbos no presente
*
*

Seus olhos, seu olhar
profundo e bondoso
estão aqui ao meu lado
no rizoma desta noite
cravada em névoa
*
pedem um afago
um carinho na cabeça
*
pedem aquilo que haveria
de apascentar o mundo
*
aquilo que haveria
de dissuadir Pizarro
de sangrar a cordilheira
*
aquilo que poderia
apartar o apartheid
*
o massacre em Gaza
*
a demência do terceiro reich

-------------e as bombas
-------------no Japão
*
*

Dou-lhe o alento
do cafuné
que seus olhos pedem
*
que seu focinho insinua
quando se mete
sob minha mão
*
e adoça o tempo
*
*
Ele está aqui ao meu lado
Ele é um bom menino
Ele me ajuda a cuidar
-------------dos filhotes abandonados
-------------que trago da rua
*
*

Ele os lambe
e os carrega na boca
*
*
Ele acha que os dentes
são só pra comer
e carregar filhotes
*
carregar filhotes
e trazer de volta
a bolinha
de borracha

pra que eu a relance
sobre o gramado dos puros
*
*
Ele me faz mais simples
Ele apontou-me a miséria dos homens
com seu olhar de simplicidade

*
então afago-o
com todo o carinho do mundo
*
*
Ele teve câncer
em sua excelsa mandíbula
de carregar filhotes
*
e aqui está
no rizoma desta noite
nevoenta
a meter o focinho
entre as diástoles // sístoles
pra me confortar
*
*
Se me levanto
ele acompanha com os olhos
*
Quando me sento
ele se achega ao lado
*
*
Ele ficou doente
Ele açucara o tempo
*
e eu me fecho
a qualquer desses helmintos
vagabundos
que afloram da merda
pra dizer
que
enlouqueci
*
*
*

Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

BRISA

*
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*
*
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Dois Invernos
*
*

Tão logo o inverno se foi
abri as mãos
--------------e libertei o vento de Jacarta
como Miró libertaria um pássaro
*
*

Melhor assim
--------------após reter as mãos fechadas
--------------os dedos tesos
---------------------------de quando o frio é rigoroso
*
se ser abelha é a vocação das almas
*
*

Planejei acalentar o mar
--------------galopar o hipocampo
--------------soltar as lepas dos cascos
*
mas desisti de tudo ao conhecer Amisha
*
: por ela
soprei um novo inverno
--------------pra que não tivessemos que deixar o quarto
*
-----------------------------------e então
-----------------------------------as borboletas des-
-----------------------------------voaram
-----------------------------------as lagartas retornaram
-----------------------------------aos ovos
--------------------------------------------sobre as folhas
--------------------------------------------da passiflora
*
mas Alisha não ficou
*
*

Novamente, libertei uma brisa da Ásia
quando a primavera
--------------apontou
*
mas
desta vez
--------------foi leve fresca l
ambuzada de néctar
*
*
*

Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

GALOPE

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*
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A Infinitude a Parir
*

( Para Bianca Feijó & Inês Ramos )
*
*

Plena manhã
da estação das cores
*
revolvo o quintal num silêncio morno
*
------------num silêncio lento
*
------------do caminhar de um velho
------------de pijama
em busca de perceber as contrações
da infinitude a parir
*
*

Desde que enlouqueci
ganhei novos direitos
*
e um novo dialeto
*
: recito duma cartilha
que poucos saberão solfejar
*
*

Apareceram pulgões na roseira:
------------fêmea gera fêmea
------------que gera
------------fêmea
------------que gera fê-
------------mea
------------que...
*
*

------------Não há machos
*
A neta está no interior da filha
que sequer inda nasceu
e lá atrás
------------no futuro
celulazinhas idênticas à avó
aguardam num sonho profundo
*
*

Há previsão de chuva para hoje
Um cavalo de nuvem cavalga o vento
*
*

Na casca do limoeiro
uma varejeira verde
------------metálica
está prestes a tomar uma decisão
*
------------- coisa que desaprendi a fazer -
*
------------ela espera a boa nova da carniça
------------e seus olhos são mais belos do que deus

*
*
*

Domingo, 23 de Novembro de 2008

INFINITOS

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*
*
Tempus Fugit
*

( Para Márcia Maia & D’Angelo )
*
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1.
Um grande úbere
na abóbada do céu
e eu
a ordenhar as horas
*
eu e minhas moscas
a ordenhar as horas
enquanto a noite muge
*
*

Cada minuto
------------é um filamento
a jorrar
das glândulas da grande-mãe Perenidade
*
*

Melhor nutrir-se
------------assim
quando os cometas passam
pela via branca da continuação
*
como lascas de carvão
na água rasa
*
*
*

2.
O gato
o sono das crianças
o sestro canto da coruja
------------são distintivos da noite
*
assim como o doido
o bêbado, os depravados

------------e seus tenesmos
*
e todos os joões e miguéis insones
*
------------&
*
as mulheres com botas
------------com estampa de onça
*
*

[ No micélio dos fungos
um tic-tac de relógio ]
*
*
*

3.
Foge o tempo
*
------------Voa Cronos
- aquele que engoliu seus filhos
e apartou o céu da terra
*
*

Voe também
a loucura de cada ser
e cada criatura
*
*

pois é melhor nutrir-se
------------assim
*
*

é melhor nutrir-se
------------assim
de alumbramentos superiores
*
e haurir a vasta brisa

------------do sem-fim
*
quando os olhos se arregalam
nos intervalos
------------de Hölderlin
*
*
*

Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

PRÊMIO DARDOS

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Este Blog termina de receber o Prêmio Dardos através do Blog "Márcia Sanchez Luz".
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“Com o Prêmio Dardos reconhecemos os valores que cada blogueiro mostra a cada dia no empenho em transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, em demonstrar, em suma, sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.”
*
*
*
Márcia, agradeço muito pela homenagem.
Chico (Assis de Mello)
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*
*
À direita, minha relação dos Blogs que também receberão o Prêmio Dardos
(sorteados de uma lista prévia de 25 blogs que eu havia escolhido)

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Sábado, 15 de Novembro de 2008

ONDULAÇÃO

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Recuerdos
*

( Para la Mujer de los Gatos )
*
*
Enrodilhada
como a cauda
da verdadeira coral
--------------um raio de cisma
--------------brota dos olhos
--------------sem ventar provento
*
- [ cisma de ] um mofo aspergido
--------------por paredões de grotas
--------------& palafitas bambas
, vez que pouco me lembro
da cisma dançante das algas
*
*

Explode a água na noite do basalto
--------------&
os protagonistas de um bestiário torvo
--------------avançam em hordas
como devotos no anoitecer
--------------dos dias santos
*
*

--------------Encharco
*
*

Pairo medonhas feras
d`uma fauna excomungada
--------------que rasgam-me vulvas na derme:
*
--------------as bundas primeiro
*
--------------depois
--------------os olhos ciclópicos
--------------olores
*
--------------córios
--------------âmnios
*
--------------alantóides
--------------e gosma
*
*

Como esquivar
do caruncho do couro
& da broca dos tendões
*
--------------quando a lua vai a pino
*
--------------e uma nítida lembrança
da mujer de los gatos
--------------retorna
*
uma vívida lembrança
de seus gemidos
salobros
--------------retorna
*
com aquela topografia de noite frescal
morna, úmida & cheirosa
*
--------------pra cair

---------------------em mantos
--------------------------------de bruma
--------------
na relva noturna de meus pelos ?
*
*
*

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

EXIGÜIDADE

*
*
*
*
*
*
Sobre Um Certo Paciente do Dr. Freud
*
( Para Vicente Franz Cecim )
*
*

Só três tipos de noite
o vestiam:
------------- a de poeira & ossos
------------- a de poeira sem ossos
------------- a sem poeira, só ossos
&
pouco lhe restava
-------------a proceder
-------------nesses nojos
*
, além da obrigatoriedade

- de se inalar enxofre
enquanto almejava a horizontalidade
------------da planície;
*
- de desviar de cobras
------------emplumadas
& de anfíbios
------------escamosos;
*
, além de
*
- arar o mar & nadar contra gumes de facas;
*
&
*
- debater-se
na Babel ao cavoucar o paredão
de pedras

*
------------[ ou ]
*
------------- dançar
------------pra uma platéia
------------de fantasmas
*
*

Boa mãe: a floresta pare e devora
------------os próprios frutos

*
*

Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

ILUSÕES

*
*
*
*
*
*
Fragmento de uma Prosa Íntima- I
*
( Para Michel Deguy, Paula Glenadel
& Marcos Siscar )
*
*
...
em noites como esta
sem diálogo
*
eu me encerrava
em minhas próprias matas
*
---------------------nas brenhas
---------------------das
minhas próprias Índias
e Bornéus
*
e dava-me à ilusão
de ser uma ave empoleirada
---------------------numa fronde
numa terra de silêncios
---------------------decretados
*
e
conforme a lua se movia
minha plumagem refletia
*
mil cores
*
*

Em noites de desterro
também compreendo
---------------------a solidão
dos tuaregues*
*
daí meus desertos
---------------------que
---------------------no entanto
---------------------sempre imploram
por verdura
*
*
*

*- Referência ao poema “Mauritânia”, do livro “Os Olhos do Deserto”, de Marco Lucchesi. Ed. Record, Rio de Janeiro, 2000.
*
*
*

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

INTEGRIDADE

*
*
*
*
*
*

Um Mote pra Bolero
*
( Para Lau Siqueira )
*
*
Só um desespero
maior
poderia me convencer
de certos dogmas
*
*

Como dobrar-me
------------------nas manhãs
em que as pequenas senhorinhas
------------------de ossos puídos
visitam cemitérios de cálcio
onde habitam
os que supriam suas entranhas
------------------de esperma
[ & quase nada além disso ] ?
*
*

Também os cães enterram ossos
*
& nem por isso
quero crer
que tudo o que é da terra
------------------é cataclismo
*
*

Ouvi histórias
d`um joalheiro ambliope
que a vida toda se banhou na lama suja
e nunca se perdeu do próprio brilho
*
*

Além da cerca
pasta a vara das mais inviáveis possibilidades
----------------------------& tudo se reverte
*
o resto é a mais pura
lavagem
*
*
*

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

TORTUOSIDADE

*
*
*
*
*
*
Na Borda da Ilha
*
( Para Graça Pires & Alexei Bueno )
*
*
A brisa de fim de chuva
---------------o sol recatado
desnovelam sensações
em torno do farol
*
*

Libélulas pousam
na estreita amplidão do píer
nenhuma
nau
atraca
*
*

Uma certa amenidade substantiva
e convincente
suporta o estridular de um gafanhoto
que esfrega as pernas nas asas
ao medir o tempo
antes que algo de novo aconteça
*
que algo de antigo
---------------aconteça de novo
*
pois a craca é imune ao bater das ondas
*
e pensar
é um remendar
constante
*
*
*

Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

DIGNIDADE

*
*
*
*
*
*
O Vaga-Lume
*
( Para Marcia Tiburi )
*
*
--------------------Vico
--------------------&
--------------------Nietzsche
--------------------:
*
creio que era uma polca
aquilo que dançavam
por entre as ruas
do cemitério
*
*

Iam e vinham
a percorrer os muros
com saias rodadas
--------------------de camponesa
pra voltar ao mesmo lugar
mil vezes
*
*

D`um vaso de sempre-vivas
o Uroboro espiava
--------------------com a cauda
--------------------afogada na boca
*
--------------------&
*
eu, que me continha
sob o limbo d`uma folha de Ficus
[ que estrangulava
outra grande morácea ]
--------------------acendi as luzes
--------------------e voei à beira do rio
--------------------pra fugir
--------------------dos pensamentos
--------------------compulsivos
*
*
---------------------Heráclito estava lá
*
--------------------- em lugar algum se compra sossego
--------------------quando a noite
--------------------desce
*
*
*
*
*
*
Fin d`Voie
*
( Para Jacques Roubaud )
*
*
Estilhas
talharam o dia
quando a pedra
---------------caiu
*
*
O outono
aderido à fuligem
rolou na cegueira
antecipando o inverno
*
*

Toda alegria
---------------emigrou
---------------de antemão
pela rota das narcejas
*
pra morrer no sul
*
lá no sul
*
no extremo do sul
*
onde tudo
---------------a-bunda
*
*
*

Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

ROTINA


*
*
TRÊS POEMAS PARA PAUL CELAN
*
*
*
Disjunção
*
*

Às vezes começo a lembrar
daquilo que sugere
uma certa tarde nas dunas
de abóbadas alaranjadas
num fim de tarde
------------------com pombos
------------------e folhas arrastadas
*
de manhãs de sol com crianças
------------------lambuzadas de frutas
e de uns estalidos de velhos que mascam a língua
sob o chapéu
*
*

De repente tudo pára
:
uma senhora
( um gato )
atravessa
o pátio
sem qualquer cerimônia
e arremessa minhas visões
para nenhures
*
para além
-----------de
-----------um
-----------poço
-----------cavado
-----------jamais

*
*
*
*
*
*
Apnéia
*
*

A tarde acorrentada
a um cano de torneira
e a noite mouca
*
*

À manhã
nem me ouso referir
: a claridade ofusca
*
*

Uma dama sentada à sombra
embala o vento que me foi roubado
*
*
*
*
*
*
O Louco
*
( Dedicado também a Michel Foucault )
*
*
... e vagava
pela medula da própria alma
exilado
corporificado em água e polpa
como as entranhas de um coco
que se encarceram
na fibrosa intransigência
*
*

Nos bolsos
pensamentos ferviam-lhe
como besouros no guano
*
idéias vertiam
dos canais lacrimais pródigos em vida

*
e, se no escuro
tinha consciência
das próprias pústulas
*
no claro
era branco como giz

*
*

Talvez soubesse das coisas
*
Talvez guardasse a chave
das grandes verdades
*
pois enquanto muitos se mataram
na larica de viver
---------------ele banqueteou
em seu casulo de fibra
sem ter que se morrer
*
e nos dias úteis da semana
quando as pulgas se vestiam de gala
e entoavam recitais com pompa de barão
ele dançava [ mas não ouvia ]
*
E ria

*
*

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

ENLEVO

*
*
*
*
*
Ocarina
*
( Para Leila Miccolis )
*
*
O sopro morno
------------nas entranhas
------------da argila
------------dura
*
o enlevo crescente
*
os dedos leves
------------nos gentis prelúdios
------------de um dedilhar de mulher
*
o calor das mãos
*
, tudo
reinventa o segredo das conchas
*
*

Algo se avulta
------------no oco

o novo reaviva o velho
*
e o som leve do hálito
------------partido
rompe o hímem do tempo
e crispa a pele do silêncio
*
- libélulas, pardais
------------rebrotam
do horizonte
*
da melodia
------------afloram
os presságios
*
*
*

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

SOLIDÕES

*
*
*
*
*
Marinha
*
( Para Giuseppe Ungaretti & Marco Lucchesi )
*
Uma alma corrugada
de tantos vieses
*
- jararaca ilhoa
no raso do chão
*
*
Manhãs sem sol
---------------Uma espreita
---------------de pedra
*
*
Vez ou outra
um barco aponta
na borda do arco
*
mas não
---------------atraca
*
e todos os faroleiros se foram
*
---------------numa certa manhã
---------------endiabrada
---------------de sal
*
*

Um cochicho de vento
---------------ressona
no umbo
e na boca das conchas
*
*
Farfalho

*
*
*

Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

LONJURAS

*
*
*
*
*
Nos Campos do Norte
*
( Para Adriana Lisboa )
*
*
Extraio dos cardais
um poema
-----------do norte
*
*

O bisonte europeu
-----------está ameaçado
; os da América
chegaram a somar
-----------20-30 milhões
-----------de indivíduos
e declinaram para 1.091
-----------em 1.889
*
*

Do meio das inflorescências arroxeadas
que se deitam ao vento na invernada
logo ao fundo da casa
-----------brota uma novilha solitária
-----------que vaga nos sóis
--------------------------e rumina
--------------------------o de sempre
*
-----------sustém um passo
-----------e me encara nos olhos
*
-----------
e então se vai
-----------a largar esterco
*
*

À noite
seus olhos refletirão a lua
enquanto os meus cairão tão baços
quanto as janelas de uma cabana de toras
-----------no frio

*
*
*

*
*
*
Fantasmas
*

( Para Ana Ramiro e Marcelo Tápia )
*
*
Dos verdes
escolheria o chorão
---------------& o gramado
*
poria um gato
& um sapo que coaxasse
---------------silêncios
*
pra compor uma cena
que a lua gostasse
*
*

Afastaria qualquer riso
---------------de criança
traria a silhueta de um bêbado
*
algo de hesitação
---------------arrepios
um dedo de bruma
o ciclo das mulheres
*
---------------
o desejo
de algo proibido
& um tremendo medo de Deus
*
*

Pegaria então os pincéis
& podaria a raiz
---------------de qualquer atitude
*
*
*

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

DUSK

*
*
*
*
*
POEMA ESCRITO ORIGINALMENTE EM INGLÊS. TRADUÇÃO NA SEQÜÊNCIA
*
*
*
*
*
Dream-Making Woman
*
( For Catherine )
*
*

--------------------Ages of desert
*
*

Looked through the well circle
----------------------for moist
& there she was as a Silurian fish
in the distance
*
*

Her movements:

--------------------a slow seaweed undulation
in the bowl
of a starry night, a windless night
on a smooth bay of salt

& delirium
*
but all I saw
was breasts & shoulders
- prairies & hills
of tender skin -
*
& the base of a neck
--------------------so feminine
I felt the heat & breathed the scent

*
*
A woman & her perfume:
*
birds sang from her hair
--------------------from her nightly

--------------------------hair
----------------------amidst the water
& unburdened my load of emptyness
& coarse dust


--------------------Lust
*
*

Her adornaments
led me to a point between pyramids

------------------------hieroglyphs, camel herds & tents
but her face remained as a blank on the sand
*
*



Next day
as I ran the villages
&
walked my desert
along
jungle trails
*
her peach skin
still ruffled my bristles
*
*
Missed
the quarry
&
the brook
*
*
Went lost
in other
dreams
*
*
*
*
*
A Fazedora de Sonhos
*
( Para Catherine )
*
*
--------------------
Eras de Deserto

Olhei pelo círculo do poço
--------------------em busca de umidade
& lá estava ela como um peixe do Siluriano
à distância
*
*
Seus movimentos:
--------------------lento ondular de erva marinha
na taça de uma noite estrelada, de uma noite sem vento
numa lisa baía de sal
& delírio
*
mas tudo o que vi
foram seios & ombros
- pradarias & morros
de uma pele macia -
*
& a base de um pescoço
--------------------tão feminino
que pude sentir o calor e inalar a essência
*
*
Uma mulher & seu perfume:

pássaros cantavam de seus cabelos
--------------------de seus noturnos
--------------------cabelos
--------------------entre as águas
& minha carga de vazio & poeira grossa se aliviou
*
*
--------------------
Desejos


Seus adornos
conduziram-me a um ponto entre pirâmides
--------------------hieróglifos, cáfilas & tendas
mas sua face permaneceu como um branco na areia
*
*
No dia seguinte
conforme percorria as vilas
&
e caminhava por meus desertos
ao longo
das trilhas
na floresta
*
sua pele de pêssego
ainda eriçava-me os pelos
*
*
Não notei
a pedreira
&
o ribeirão
*
*
Me perdi
noutros
sonhos
*
*
*

Sábado, 28 de Junho de 2008

HORIZONTES


*
*
*
*
*
Auto-Imagem
*
( Para Mia Couto )
*
*

Nesta
pálida insignificância
vou-me múltiplo
*
*

Não temas
minha pouca estatura
----------que de ave me basto
*
----------: trago um vôo em cada pena
*
*

Se esmarrido me apresento
----------, distendo
----------meus tentáculos
----------como a erva mirrada
----------na eloqüência
-----------------------da duna
*
*

--------------------E não me olhes
------------------------de viés
*
*

Arrancar-me do chão
----------
é puxar o mundo
*
----------lançar-me ao ar
----------é cotucar ventania
*
--------------------interpelar trovões
*
*

Nesta
compleição anfíbia
de larva precoce entre grãos

--------------------sou a sombra psamófila
--------------------num ovo de dragão
*
mergulho no fogo // atiço as águas
*
*
*

*
*

Canto do Cisne
*
( Para Régis Bonvicino )
*

*
Esquadrinhar
os séculos
de silêncio & rebentina
*
transpirar nos labirintos
de insultos
e labéis
*
----------e apesar
----------do frio
*
----------apesar do arrocho
----------da amplidão do exílio
*
----------e
----------do peso
----------da córnea turva
-------------------------e sem tenência
*
untar
a voz
----------d`uma longínqüa plausibilidade
-------------------------que martela
*
*
Soprar a vela é chamar a treva
Soprar a vela é ganhar o mar
*
*
*
*
*
Sobre Homens e Vacas
*
( Ao sorridente Seu Nestor )
*
*
Na manhã seguinte
à noite
em que me pus a refletir
*
sobre
as
mulheres-girafa
da Birmânia
e
os homens
com falocarpos
da Nova Guiné

*
sobre
as
vulvas
d`África
fatiadas na sombra
e
os
pés
atrofiados
das senhorinhas Chinesas

*
sobre
as
bruxas
queimadas
e
os
meninos
castrados
pra que cantassem nos coros
com vozes
de
anjos
*
*e
os
prepúcios ceifados
como orelhas
de cão
,
*
as vaquinhas de Seu Nestor
voltaram
aos terrenos baldios das cercanias de casa
ao alcance da vista
*
O sino, o mugido
e o doce aroma
da merda fresca
reinventaram meu coração
*
*
*

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

TEMPO

*
*
*
*
*
Uma Cena Boreal
*
*

Teu vulto claro
--------e cereal
embebido na manhã lapã
como a coruja do ártico
em sua leveza
*
estende-nos
num trigal deitado

--------ao vento
*
ao som
de duas ocarinas
*
e não há trópico que desdenhe
de nosso calor certeiro
--------e liberto

de ave
*
*

*
√ √ √ √ √ √ √ √ √ √ √ √ √
*
*
*
Patos enfileirados
fecundam
--------horizontes

*
*


Terça-feira, 10 de Junho de 2008

SUMIDOURO

*
*
*
*
*
O Tempo a Galope
*
( Para Edson Cruz e Pipol, editores
do portal de literatura e arte Cronópios
*
*

1.
Nesta manhã
de um outono
perdido
refugo a claridade
------------reluto
em começar
------------a escrever
; rudimentos da conversa
entre dois homens
que raspam
enxadas no chão
rompem o que se foi
da neblina
e chegam a esta mesinha
na varanda
*
um beija-flor
terminou de lancetar
------------a flor de plástico
e gritar um txiiiiiiiiiiii
------------ou melhor
um djiiiiiiiiiiii
*
desaprendi
a deter as coisas
e as borboletas voam
------------por aí
não sei onde

*

*
*
2.
Nesta noite
de uma primavera
em fuga
refugo a escuridão
reluto
em parar------------
de escrever
; rudimentos da conversa
entre duas mulheres
que lavam pratos
e rotinas------------
rompem o que se foi
do lusco-fusco
e chegam a esta mesinha
na varanda
*
um morcego
terminou de tangenciar
a lâmpada------------
e gritar um silêncio assim: { }
ou melhor------------
assim: [ ]

aprendi
a não reter as coisas
e as mariposas voam
por aí------------
bem sei onde
*
*
*
3.
O tempo
a galope:

apaguei
a planta
da tarde

fiz
morrer
o inverno
*
*

Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

BLINDAGEM


*
*
*
*
*
Um Olhar Sobre as Letras
*
( Ao ler poemas de Cláudia Gonçalves )
*
Rasgo
meu silêncio
de
sargaço
e breu
*
*

Como aquietar-me
neste
mar
de versos mínimos
.........................se cada célula
.........................do plâncton
.........................cria seu próprio
.........................panteão ?
*
*
Fios de encantamento
também cosem
oceanos
*
*
*
*
*

O Louco Diante do Espelho
*
( Para Michael McClure,
Ann Waldman e Gary Snyder )
*
*
Estou no rastro
das noites
; busco a leveza
do óleo
e o ímpeto hormonal
do meio-dia

*
*
É com olhos
e lentidão moluscos
que vejo o mundo
e também trago a casa às costas
*
*

Relevo toda viscosidade
todos os géis, plasmas
; qualquer latejar é um caro amigo que tenho
*
*
Afago a brisa e o vento
Retribuo suas carícias
quando meus pelos se eriçam
nas touceiras dos guaraxains

*
e bendigo o leite da lua
que se derrama sobre a flora
que penetra na solidão ondulante do mar
que reluz, concentrado, na superfície limosa da turfa

*
*
Já paraste num acidente da paisagem
pra sentir nesses átimos
teu próprio respiro ?
*
pois então... diz-me quem sou
que
dessas coisas
me nutro
*
*
Nunca deixei de enaltecer o leite
das fêmeas
o leite que veio do leite do macho
*
e sempre há, ao longo das trilhas
um lagarto verde
que me acena
co’a cauda

*
*
Sou também sensível ao tempo
e ao tato
feito uma planária na planície
ou uma pequena elevação
de tecido erétil
encravado no vértice
de um pequeno fiorde
logo ao norte de Kristiansund
*
*
daí
encrespo-me ao vento
, como disse

*
*
E não sou homem de bares
Cultivo um mar de samambaias sob a pele
um mar de avencas
e bons presságios
*
e por mais que migrem os pássaros
as batuíras sempre retornam a mim
pois sou homem de amar

*
*
Já desfiei tramas densas de sisal e ódio
mas clareio as olheiras
dos que minguam na sombra

*
; destilo iras
e devolvo alento
Retorno afeição

*
*
Há quem me veja
como o louco na torre
o doidão na bastilha
( Mas também não se vive de ilha ? )
*
*
Silêncios também me sustentam
: mesmo mortos
os escribas de Hamurabi
os grão-vizires
Bach e o tropel dos hunos
ressoam
em minhas manhãs

*
*

Prefiro ter-me
como o airado aéreo das amplidões
, aquele a quem
as antigas bruxas
cantam e cavoucam a terra
dando forma a meus jardins
Tenho brisa perfumada
no alvorecer

*
*
E tu
que ora me fitas nos olhos
e súbito baixas a guarda
quando me desligo
pra elaborar um pensamento
, como é que tu me estimas ?
*
*
O que dizes
das qualificações que recebo
dos robôs cartesianos
que passam a vida
repetindo tarefas
e
etiquetando latas ?

*
*

De que vale
semear relógios ?

*
*
Esta compulsão
ao pentear a barba
me traz alívio
momentâneo
Portanto sou feliz
e abraço o mundo
*
e nunca vi galinhas
a desprezar insetos
nem porcos um banho de lama
então repito que sou feliz
e abraço o mundo
*

*
Na estação das águas
contemplo os canteiros das bruxas
; no estio
retiro os camarões das tocas
- eis de onde vem minha extrema felicidade
em abraçar o mundo

*
*

Eis de onde vem
o primeiro cio das potras
a paisagem em semi-tons
e o olvidar constante

*
*

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

LEMBRANÇAS

*
*
*
*
*
No Recolher dos Pássaros
*
*
Uma alma exposta
---------------sem velames
fino hímen
num íntimo crepúsculo


Falo de lembranças
Falo
de teu olhar melancólico
---------------mas impelido por desejos
e de uma fina saia de fazenda indiana
que te cedia o vento às coxas


É dos lábios em meus dentes
---------------que falo
de teus hálitos, sabores
e do calor
---------------com que tatuavas meu peito
---------------no recolher dos pássaros


Nunca me esqueci daquela sensação de vagas
---------------com seus bruscos faleceres
---------------seguidos de um súbito parir
---------------em nosso respirar
ou daquilo que fugia
quando o fogo remexia
*
*
Falo das línguas, das bocas
e de cada um dos gemidos
---------------que não ousamos conter
no turbilhão de santuários
que nos coseram no tempo


Falo de tua alma exposta, explícita
---------------e sem velames
de uma orquídea a prenunciar a noite
de tua maneira de se anunciar
---------------como a mustela no cio
e de teus olhos de corça
---------------e de minha rigidez de árvore
---------------sem gretas na cortiça
*
*

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

IMPERCEPTIBILIDADE

*
*
*
*
*

Poema da Invernada

( Para Maria Esther Maciel )
*
*
*
*

Tempo I- Banimento
*
*

Um sapo no mar
..........................se recorda
do braço da boneca
no chão da favela
*
dos loiros cachinhos de nylon
vedando frestas
*
*

( Seu corpo murcha
presumindo a morte
Sapo e sal nunca se dão )
*
*

..........................A mesma lembrança
que atirou à escuridão do sótão
o palhaço atímico
*
..........................: denúncia
de um mundo em rasgadura
de um inocente esquartejar
*
*
*
*

Tempo II- Proscrição
*
*
O palhaço
em seu próprio Gulag:
pequeno sótão
em algum ponto
entre Norilsk, Kolima
e
..........................Vorkuta
onde as mãos têm a casca
do lariço siberiano

*
*

Sua expiração quadricula
a tosse comprime o gelo

..........................nas pleuras
*

muito
tempo
acinzentou-se
*
*

Sequer sobrou
..........................o quebrar das pedras

*

*
E
a roupa larga
se tornou fuligem
a vedar-lhe os poros

*
e
venta
e
chove
no cubo
*
e
seu nariz, redundante
tornou-se passa
..........................de ameixa preta
*
e embora haja um certo azul
..........................lá fora
nem a dessecada alma do sapo
..........................nem a dessecada alma do sapo
..........................que morreu no mar
o visita
*
*
*
*

Tempo III- Impassibilidade
*
*

Meia-noite e trinta e sete
*
: o espectro anuro
espia pela fresta mas não entra
*
: no sótão
não há facas
vidros, cordas
comprimidos
nada que risque chama
*
tampouco há
paredes duras
degraus, janelas
eletricidade
lamparina a óleo
fogão a gás
*
( o chão é mole )
*
tudo forrado
por uma espuma
que não se esgarça
e resiste às unhas
aos dentes
às gengivas
*
a cama é d`um limbo
que não escorrega
e ali
o palhaço
dorme ( ? )
*
*

O fantasma o espia
com seu holocêntrico

..........................olho
de fantasma
*
e o braço da boneca
bate os dedos na porta
..........................mas ninguém

respeitável público
..........................ninguém por perto

..........................ouve nada

*

Sexta-feira, 14 de Março de 2008

ÁGUAS

*
*
*
*
*
Coisas que a Noite Despeja
*
*
À frente de um olhar que dizem
plácido
pode haver uma névoa ou um manto de chumbo
*
*
A única névoa que busco
é aquela da cachoeira da noite primaveril
: a fina cerração do teu sorriso
*
: neblina fêmea que serena sobre meu corpo
distante
no mais velado dos silêncios
e o torna volátil a sonhar tua pele
teu gosto
teu cheiro
e tuas umidades
todas
*
*

Domingo, 2 de Março de 2008

EXCLUSÃO

*
*
*
*
*
{ Apartação }
*
*
( Para Sami Michael )
^
*
As molduras / as peias /
------------/ as cercas /
------------/ os muros /
as linhas demarcadoras
------------/ os corvos
------------de Poe /
abrem abismos no ar / e / nas pedras
*
/ cortam rajadas no peito / )
*
*
/ O medo (se) desnovela
: amarga serpente /
/ : baço aço /
/ : peçonha estocada
em ampolas
de silêncio e guarra /
*
*
[ Pobres olhos de Gaza ! ]
[ Pobres mãos de crianças apartadas dos pais ! ]
[ Pobres joelhos de velhos refugados nos asilos ! ]
*
*
/ O arpão da vendeta
rasou
a
razão
dos homens /
*
*
*
*
*
{ Num reino de pua / as fadas retalham
qualquer doçura
*
/ não há rebrota /
*
e as borboletas picam }
*
*
*
*
*
Teopneustia
*
*
( Inspirado pelo Autêntico
a respeito de um certo deus
inventado pelos homens )
*
*
( Para Ivo Barroso )
*
*

Boa dose de agonia
permanece na banheira
após o banho:
pêlos soltos
um colarinho de espuma
resquícios de sabonete
escamações
*
*
Acontece que a banheira
é uma ordem de pia batismal
e todo batismo
tem seu lado de tragédia
e todo banho
é rito de passagem
*
*
Um crédulo
mas malicioso espírito
força um anjo a engolir um deus
ao redor da tina
mas não o Deus branco
das pombas
e
sim
um temerário deus
das cismas
dos assombros
das aflições
a quem tudo se implore
no fluir da vida
e que transmuta o vento
em barras de clausura
*
*
Pouco sabe
sobre o amor
esse deus das pias:
antepara a mulher do próximo
e não se define
sobre a poesia da mucosa
lambida
pelo amoroso jato
nos confins das madrugadas
*
*
E quanto se sofreu
sob seu cajado !
*
*
Morreres e nasceres
residem nas banheiras
nos rios, em todas as águas
*
*
É na água que a jubilosa
noiva
beatifica o hímen
e os seios
antes do abate
da pequena ave engaiolada
no batismo
e o nascimento de uma garça
majestosa
cuja sorte
é comer sapos
e viver no choco
*
*

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

DESTINO

*
*
*
*
*
Ecila Uotlov
*
*

( Para Alice, amiga "véa", a quem
não via e de quem não ouvia
há décadas.
Nunca te esquecemos )
*
*


Néctar das passifloras
quindim
de
orvalho
ambrosia loura com olhos de mar
*
*

------------------------------Insuspeito doce
------------------------------das vovós mineiras
------------------------------nas cozinhas rústicas

manjar de brisa------------------------------
que nenhuma quituteira------------------------------
bahiana / toscana------------------------------

confeitou
*
*

Já venta no fim da tarde
*
*
Os mornos pássaros furta-cores
sentem gelar seus ventres
*
*
Descompassam-se as pulsações
*
------------------------------: é que a fada-moleca
------------------------------que urdia os moços
------------------------------num manto de mistério

e emaranhava------------------------------
os sonhos brancos------------------------------
dos meninos
------------------------------
*
voltou

Uotlov !

E haja rebuliço no dossel !
*
*
*
*
*
*
Remissão
*
( Para Luis Fernando Verissimo )
*
*

Uma pequena mosca
------------esvoaça
no hálito da manhã
*
a umidade
é das libélulas
- elementais das poças
*
*

Nunca vi
claridade benfeitora como esta
nem tantas jataís
procurando pólen
*
*

Vespas carregam lagartas
------------e aranhas
pra seus ninhos de barro
e o casal de João-de-barro
visita o lamaçal
*
A tepidez da hora
são os galhos mais tenros dos arbustos
onde as formigas ordenham açúcar
dos afídeos
*
*

Só por isso já valeu ter nascido
*
*

Só por isso valeram as chineladas, as vacinas
------------e os dentinhos lançados ao telhado
*
*

Só por isso valeu casar
descasar
------------casar
descasar, casar
*
e todas as pequenas crateras
do arroz que me atiraram ao rosto
*
*

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

ALTURAS

*
*
*
*
*
A Alpinista
*
(Para Denise Emmer)
*
*
Não importa se loura ou morena
há sempre orvalho
ao seu redor
*
*
Sempre o ar determinado
--------------------e competente
brisa mansa, olhos serenos, boca precisa
- decotado sorriso que faz navegar
*
*
É linda
e os asteróides a visitam
*
*
Ficaria bem numa casa de chás
seguida de outros olhares
*
*
Ficaria gloriosa ao ser atendida
por um garçon
da mais ímpar gentileza
*
*
E certamente manteria a mesma discrição
quando picada por insetos
ao percorrer as trilhas
antes de chegar às pedras
*
ou com a crosta das montanhas
sob as unhas
*
*
Talhada em auges, cumes, hipóxias
--------------------e canções
nunca a vi a cavalgar o Raio / a compor um poema
mas sei que inverte o traçado dos astros
que seu mundo é de altura e amplidão
*
*
Houve nela o dedo das divindades
--------------------é certo
mas não daquele deus da Serra dos Órgãos
--------------------cujo torso acariciou
mas dos deuses de todos os píncaros
que se esfregam livres por infinitos panteões
*
*
*
*
Eu, por outro lado,
sou do chão
Talvez nem possa dialogar
com quem menos se aventura
por navas e chanuras


Só nos sonhos me atrevo
E é por isso
que escrevo
agora
*
*

Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

TEMPESTADE

*
*
*
*
*
Extravio
*
( Para Micheliny Verunschk )
*
*
A vida do homem
é como a sombra de um pássaro
que nos sobrevoa
- Do Talmude -
*
Ah frágil garça
--------------extraviada
sobre o mar de sacarose:
onde deixaste teus remansos

--------------tu que tinhas
a meta de um arpão ?

*
*

Dói-me ver-te assim, tão zonza
, mas diz-me:
*
onde teu manto de aguapés
tuas veredas, teu peixe e teu reflexo ?
*
atrás de que colina rompeste
da fina sucursal do reino das hidras
pra voares agitada, consumida e tensa
com o pescoço em S e os artelhos esticados

--------------contíguos
com os caniços de taquara ?

*
*

O deserto de clorofila e bagaço
te rouba o norte, eu sei
te coage, eu sei. Nada te serve por aqui
Foi o vento ? Um pensamento ?
Quem chocalhou teu navegar ?
*
*
Ver quebrares tua linha
--------------em ângulo
como carta extraviada
me dói
Lanças-te e voltas em desespero
evocando o temor do pequeno caboclinho
quando foge do estrondo do alto e dos pinhés
*
*
Tua alvura e teus egretes
foram feitos para a linha dos vôos sem manobra
para a tua costumeira pompa retilínia
de rainha dos rios e lodaçais

*
*

O doce do primeiro é a desgrama do segundo:
*
outro passante, o usineiro
o arrendatário das terras nas verdes colinas
jamais te saberão
*
*

Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

DISTÂNCIAS

*
*
*
*
*
Uma Fábula Patagã


Revi teus olhos
e o vasto caminho das manadas

Recordei tua mão em riste
presenciei o vulto da viscacha na noite de Três Cerros
e os fósseis abissais a escamar da cordilheira
pra forrarem o fundo da estepe

..................................................que precede
..................................................o cabo
..................................................do desengano
*
Havia barcos no estreito e uma lua no céu
; Calafate dormia feito um cão na praça fria

Ouvi o regougo dos zorrillos
e o eco das aves que piaram de dia
Maldisse o vento

Ao vislumbrar Ushuaya, onde estavas
desafiei todas as rajadas
que poderiam marejar teus olhos

O amanhecer só trouxe uma amplidão
..................................................um silêncio
..................................................e uma ausência
..................................................de chão

*
*

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

AVE E ÁGUA

*
*
*
*
*
Dikako
*
( para Diana )
*


A risonha passarinha
Dikako
chegou e partiu
como fazem as garças
mas deixou tudo de si:
*
a imagem refletida
na água
um silêncio branco
a leveza das penas
seu olhar
em meus olhos
um gosto na boca

Esta noite
um sapo coaxará
na lua cheia
e sua pele fria
e verdoenga
de sapo
recordará
do calor de seus esses

A poça
jamais será a mesma
E nem a pedra

Só os fósseis
dormirão
*
*

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

CONSPICUIDADE

*
*
*
*
*
O Tempo e a Chama
*
*
À beira do fogo, tu:
sozinha e abstrata
fluida no mistério da brasa
*
*
.............................................E eu
.............................................calado
no carvão de um segredo estranho
que não posso revelar-te:
*
tingimo-nos de alvura e lodo
apartados pelo véu tecido em aço
de malditas convenções
pois vinte anos nos separam
à margem desses fogos
.............................................de junho
*
e outros séculos de moralidade
.............................................decepante
despejam água no candelabro
circundado de sapos que engolem vento
*
*
Quisera enterrar semente
.............................................de um beijo antigo
na jovialidade rubra de teu rosto
e colher o germinar perene e verde
.............................................de teus olhos
que ainda não compreendem tudo
*
Sou de ontem mas sou de sangue
............................................e tu
gata mourisca de poucos cios
*
mas o calor que procuras
no estalido das toras
não é o mesmo
que me é direito ofertar-te
*
*
Então
- ave ártica que perdeu seu peixe-
trespasso a água e me arremeto
.............................................ao vôo

*
*

PERPETUAÇÃO

*
*
*
*
*
En-Fado
*
*
( Para Gonçalo M. Tavares )
*
*
Na mesma tarde
em que os fogos de artifício iluminam os céus de Bagdá
(é noite lá)
e apagam museus, hospitais, a Biblioteca Nacional, garatujas e crianças
......ânforas ..........................................................velhos de turbante
documentos que se lê de trás pra frente
sons de nay
cerâmicas do Eufrates
um blaterar de cáfilas
das 1001 noites
dromedárias
alinhadas em caravanas
*
e o abominável senhor das moitas
come pistache
com a gente graúda
dos comitês
com homens de unhas polidas
e mulheres que fumam charutos, Genilda,
minha galinha preta
terminou de comer
uma pequena
centopéia
que tirou das frestas dos tijolos
*
/ - Pernas, pra que te quero ?
De que me serve enovelar ? - /
*
*
Jabour
seu marido infiel
com a pompa de um garnisé
portenho
parou diante da cadelinha cega
e olhou-me nos olhos
bem no fundo dos meus olhos
esperando que chovesse
milho
*
*
Tarde de estio
e a cega
no cio
*
*
Entro em casa, apago a tv
e afundo na cama
A inércia
a ciscar
no
couro
*
*

LEVEZA

*
*
*
*
*
Antônio B., um Camaleão de Saias
e o Fantasma de Hester Prynne

*
*
(...) “Isso não impede
que Simone de Beauvoir
tenha sido a primeira
a mostrar que a masculinidade
não estava restrita aos homens,
que ela é um signo racial e cultural
acessível a todos.
E isso é absolutamente revolucionário”.
- Marie-Hélène Bourcier -
*
*
"O homem é o que ele come"
- Ludwig Feuerbach -
*
*
"Diga-me o que comes,
dir-te-ei quem és
- Brillat-Savarin -
*
*
Antônio B., que sequer bebia
numa só noite
conheceu uma santa
*
apaixonou-se
pela Sra. Bovary
que se continha

debaixo de sua túnica
*
fornicou com uma tal de Xavierine
que demonstrou dominar a arte
a fundo
*
adormeceu a par
d’uma caveira

*
e acordou com Hitler soltando puns
e penteando o bigodinho
no travesseiro ao lado
*
*

Na tarde seguinte
depois de uma breve chuva
quando as andorinhas, em vôos tortos
caçavam siriris antes que a noite desabasse
teve sua cabeça decepada por um soldado
tártaro
*
*
Hoje, sua cabeça glabra e polida
que lembra o gomo esquerdo de la sedere de La Gioconda
faz parte do acervo do Museu da Imbecilidade Humana
/ onde /
ao lado de uma adaga fálica
é vista com cinco letras escarlates na testa:
BURRO
*
*
*
*
*
Matinê Dominical
*
( Para Jacques Prévert )
*
"Estamos todos condenados
a uma reclusão solitária
no interior de nossa própria pele"
- Jean Genet –


* *
*
Estranha
............dissimulada
..............................contenda
...........................................a das velhas
...................................................na escadaria da igreja
....................................................................................depois da missa
*
*
Há pouco de voltarem ao nada
*
*
Os dias iguais
o passado salobro
danadas quaisquer reminiscências
*
*
A maioria viúva de um marido só
( - “nunca mais”: promessa ao lado do morto - )
algumas virgens, sacripantas
confusas, secas, gorduchas
..............................sem nexo
nas manhãs de domingo
*
*
As que sonharam amor só souberam carícias
as que plantaram legume mal colheram premissas
jamais se casaram
as que cuidavam das flores
nenhum vazio
se farta
há eras
*
*
As velhas:
coagulam-se em pequenos grumos
no granito
cada uma a julgar-se a mais beata
....................................a mais etérea
naquela timidez arquitetada
puro fasto
em cores sóbrias
*
Falam dos finados maridos e seus cacoetes
do parente que o vizinho esqueceu no manicômio
de um sapateiro coxo.............................extraviado
em vãos de pernas
de afilhadas envergadas na bolina
*
*
E toda sorte de escalda-rabo
se desfia
enquanto elas, serviçais da fé
prosseguem orgulhosas
....................de uma faina de lida
....................de seus filhos generosos
...................................com diplomas de magistério
apesar do diabetes
das úlceras varicosas
do dinheiro magro das pensões
da angorá de uma espanhola
.................................peituda
que faz escândalo
nos porões
sarapintando a noite com desgrama
*
*
Apontam os defeitos do mundo
com uma lia de hóstia
colada às dentaduras
*
e enquanto a praça da igreja
se murcha intimidada
cada pedrinha
........................mas cada pedrinha
........................condenada ao sol
espia suas calçolas
e silencia
........................como nunca
*
... .. .. . . ... . ... .. ... .. ..... .. . . . . ..
*
*
*

Sábado, 29 de Dezembro de 2007

SUTILEZA

*
*
*
Dois Poemas de Frio e de Dor
*
( Para Antonio Carlos Secchin )
*
*
19
Remexo a gema
da noite
antes do tédio
da clara manhã
*
: têmpera fosca
de antimônio e caulim

*
- quantos fantasmas
reviram nos caleidoscópios
e se desmontam
pra depois se recoserem
numa falange de proteus (?!)
*
*
Hora de hulha
povoada de folhas
e sarridos
*
*
Hora de unha
motinação
e esgarçadura

*
*
Explode a laca
pra fora de mim
*
e é assim
que me aplaino:
*
cochonilha atada
à raiz
da geada
*
*
*
*
*
*
28
Marés de sizígia
chumbo de águas-vivas
.............................e de polvos
Chumbo de tentáculos
*
*
A caravela portuguesa
não se presta à poesia
- é eminência de ardume -
*
*
Quisera estrondar-me
como a jubarte
que se atreve ao ar
*
esgueirar-me
..............................- angüila -
nas fendas do coral
*
arrancar-me
..............................feito um raio
de peixe prata
*
*
E não ensimesmar-me
como um gastrópodo
na concha
..............................e sem o mar
*
*
O teredo da morte está na madeira do leito, está na quilha do navio. Mas o amor golpeia mais forte nos lambris do sonho. E eu ouço a noite rasgar-se no talha-mar de uma proa*
*
*
*
--------------
*- Parágrafo da parte 5.2 da Seção IX (Estreitos São os Barcos) do livro “Estrofe”, de Saint-John Perse. In: Amers- Marcas Marinhas, tradução de Bruno Palma, Ateliê Editorial, Cotia- SP (2003).
*
*

Sábado, 22 de Dezembro de 2007

ESPERANÇA


SIJÔS
*
O Sijô é um tipo de Poema-Canto bastante antigo da Coréia. Em minha opinião, é um dos mais interessantes da poesia do extremo oriente. Para quem se interessar em saber mais sobre a arte do Sijô, recomendo este livro: SIJÔ- Poesia Canto Coreana Clássica, Tradução de Yun Jung Im & Alberto Marsicano, Editora Iluminuras, São Paulo, 1994. Neste espaço, vou postando alguns de meus Sijôs. Sem pressa...
*
*
*
( Para Maria Lúcia Dal Farra
& Marcelo Tápia )
*
*
***
*
A inquilina
do barro
punha a mesa
e a cama

Soprava com o vento
pela haste do junco
Nadava num pato
em meu lago de pele

E não havia garças, libélulas; o sol não nascia
as colinas pulsavam
e havia uivos


***

Leve brisa
A delicada morcega
fadada a ficar longe
revirou meu sonho noturno

Quis tocá-la
Beijá-la kiss
Um halo brotou
circundando a lua

De manhã, era orvalho sobre a relva
E a mais feminina
das lendas se dobrou


***

O espírito se alforria
entre as folhas e a ramagem
A melhor experiência
é contemplar o colibri

Por quanto tempo andei
às cegas na cidade
no escuro das rotas
de dentro de mim ?

Boracéia: mata de neblina no silêncio das manhãs
Muitas pegadas vou deixando por aqui
como as antas, os catetos e as aranhas
*
*
***

Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007

AMOR, CONFIANÇA E LIBERDADE

*
*
*
Teus olhos, meu filho
são as luzes à frente
num túnel sem fim:
caminho cavado
na rocha das eras
*
*
Cabe a mim
- e só a mim -
deixar em tuas mãos
o bastão que recebi
na corrida
dos amorosos
*
mas a cesura da noite
foi sangue nas folhas
de um manual de decências
e os ventos condenam
as exúvias
ao pó
*
*

Tudo o que quis
quando ainda não falavas
foi aninhar-te nos braços
aquecer o teu leite
tecer-te uma fábula
que encantasse
*
mas as botas de lama
irromperam na via
de todos os Salmos
e nossa rota
curvou-se assim:
*
traço seco no vazio
na página em branco da vida
quando tudo
importa tão pouco
[1]

*
*
*
--------------
[1] Frase de desfecho do poema “A Verdade”, de Cláudio Willer. In: Estranhas Experiências e Outros Poemas, Ed. Lamparina, RJ, 2004.
*
*

Sexta-feira, 6 de Abril de 2007

DOM QUIXOTE

Acrílico sobre tela preparada em juta
*
*
*
*
*
A Deusa do Bar

--------------------------------( Ao amigo Nordahl Christian Neptune
----------------------------------que um dia me falou de um Netuno
----------------------------------que vivia tanto no mar quanto no bar )

1
Desde a primeira vez, já fora muito mais
que pernas lisas
braços, rosto
torso com flanco tatuado
de golfinhos e sereias
ressurgindo
entre flores de narciso
símbolos da arte zen
e um espírito do flower power
sem esforço

*
*
O cabelo aos ombros
- ímã em cauda de potra -
e mais outro filme na base do colo
induziam a um clima sutil
mas tão desesperado
que só um neurônio bem vivido
poderia vislumbrar
com nitidez

- o neon a repicar-lhe dos olhos
como estrelas gotejando
num veludo negro

*
Feito Netuno no abismo do mar
lá estava ela no fundo do bar
Reinando

*
*
2
Na segunda vez que a encontrei
28 noites depois
continuava ali, náiade abissal
na lua-cheia
feito uma holotúria presa à rocha
ou melhor
feito duas, três anêmonas
crinóides
gorgônias
cedro enraizado
em manto de calhaus
ou qualquer outra coisa séssil
criatura que o valha
ainda que ondulasse
na turbação da madrugada


Pois conferi, naquele instante
brotar de seus dentes
um fantasma
que iluminava as solidões de cada mundo:

algo que Bosch / o velho Bruegel
haveriam de ter rabiscado
pra enigmar um canto de tela
como se fez, p. ex.
naquele ovo com pernas
a correr frugalmente
entre a sordidez de cenas medievais
repletas de gordos dormindo
multidões de desgraçados, coxos
escravos da igreja, definhados, magros
e montes de feno

*
*

3
Na última vez
que a vi
já não estava em lugar algum
Mulheres assim não precisam de perdão
*
*
*
*
*
Numa Noite Ofídia
*
*
( Para Floriano Martins )
*
*
*
A noite e seu bolor:
*
*
deslize de terra

uma brisa omissa

a flora sufocada

o regolito exposto

*
*
um filhote de cutia
a implorar por leite

olhos de amores
vazados na resina
arrepios esvaídos na bruma densa

uma formiga insone

*
*

Nas hifas do mofo
o que resta
senão
larvas de pulga
no balaio do gato
que o carro matou ?

*
*

Mas, a manter
a rotação do ânimo
largamos a pele
invertida
na forquilha cravada num torrão de espanto

*
*
( - Aleluia ! - )
e lustrosos saímos a rodar em círculos
e a morder o rabo:
*
nosso próprio rabo
- único alento
que nos consentem
*
*

SOLO DE SAX

Acrílica sobre duratex impermeabilizado
*
*
*
*
*
Femina



As águas como mãe
o sorriso
como ilha

Quantos náufragos
içaram as mãos
na sede de alcançar
essa terra
resguardada por peixes
e gorgônias ?

E o que dizer das aves
das araras
juruviaras
a dançar
por sua morna
hidrografia ?


Deusa na espuma
: ei-la
a depurar a enseada
com olhos negros
da terra de Damasco


trazendo
a mais rosada
das flores de ninféia
nos cabelos
prescrevendo
eras
de mistério e enlevação


*


No escuro do sem-fim
meus olhos
criam cometas
*
*
*
*
*
Sommerfugl

------------------------------------------------------------------------------( Para Lyselotte A.
--------------------------------------------------------------------------------que chegou
--------------------------------------------------------------------------------se foi
--------------------------------------------------------------------------------mas ficou )

Um
mínimo
deslize
Lyse
e minha viela
violou-se
em chispas:

vagarosos búzios
a se arrastar
nos areais
de cambraia
e pele
texturas
do interior
das ostras
holotúrias túrgidas

Oh radiosa
Freya
filha de Njord
mulher de Od
e minha:
converte-me
em
falcão
com esse teu amuleto
de penas

Abandonaste a rocha
sereia do porto
de København -----------------------------------------Copenhague
para roçar-me
com tuas tranças
de sol
teus olhos de casca de mar
tua tez de pérola
juvenil

uma terrível
impetuos
( a )
idade
Viking

e um silêncio
benigno
quase penumbra
( - indecifrável
carta náutica -
puro mistério )

: eis teu belicoso
instrumental
de tortura
sommerfugl -------------------------------------------borboleta

E ainda trouxeste
pra minha gruta
de rei eremita
o aconchego
de uma casinha
verde
numa borda qualquer
da Jutlândia
com esse cheiro
de pão
exalando do forno
- grahamsbrød - ---------------------------------------- pão de grãos integrais -
e esse livro
repleto de grunhidos
sobre o criado-mudo:

drøm behageligt -----------------------------------------bons sonhos
hemmelighedsfuld ---------------------------------------cheios de mistério
måne // stjerne -----------------------------------------lua // estrela
måge // bjerg -------------------------------------------gaivota // montanha
duftende // markblomst --------------------------------cheirosa // flor silvestre
jomfruelig pige ------------------------------------------virginal menina
guldførende ---------------------------------------------que contém ouro
ildfuldhed -----------------------------------------------ardor
elsker ---------------------------------------------------amante
kødets lyst ----------------------------------------------volúpia da carne
havgudinde ---------------------------------------------deusa do mar
udstyrsstykke ------------------------------------------espetacular
ildsprudende bjerg --------------------------------------vulcão
frugtbar jord --------------------------------------------solo fértil
smøring -------------------------------------------------lubrificação
det er regnvejr ------------------------------------------está chovendo
flod -----------------------------------------------------rio
skrige ---------------------------------------------------grito
sædvæske ----------------------------------------------sêmen
stilhed --------------------------------------------------silêncio
fylde ---------------------------------------------------plenitude
havskum ----------------------------------------------espuma do mar

Vou te dizer duas coisas
radiante Lyse:
*
*
1- Ele estava errado
nunca houve nada de podre
no Reino da Dinamarca
*
*
2- Estou ficando
completamente
maluco
*
*

TRIBUTO A CALDER

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Ofertório
*
*
A ti, o suficiente
e um pouco mais
do que não havias planejado:
*
a ousadia
de um sol nas omoplatas
um pequeno bivaque na serra
a lua nos dentes, a lentidão nas horas

*
*
É a ti que reservo, por suposto
o pio da ave rubra
e as noites mais leitosas
*
por onde os grilos ecoem
entremeados na ramada

*
e as secretas cochonilhas
rezem silêncios
de raízes
*
*
*
*
*
Posse e Desfeitura
*
*
-------------- ( À memória de um certo umbigo-
----------------------gral que, de fundo e belo
----------------------poderia conter no vórtice
----------------------os ovos de um cuitelo )
*
*
1/2 lua
e a dança tua
deterei
neste tempo afoito

*
como tudo mais
que se move

*
*
E do fogo que ardia
em teu pelo
gardarei fagulhas:
súmulas do pasto
que me há saciado

*
*
Também
perpetuarei
tua boca
a lamber-m’a face
com fúria de lobo

e o que houve de probo
no olhar sem cautela
andrajoso, roto
entre urros e coitos
*
*
Ah, e por que não
ainda
trancafiar os retratos
das mãos obscenas
no chão
parque
relva
sem muito supor ?
( ...se eram dedos de garoa fina
em pétalas de canção de pássaro... )
*
*
Do mais, manterei o vinco
Mas atarei, de soberba, ainda
teu umbigo cálido
*
*
E então, num arco de lua
co’a pele tatuada
por tua carne crua
e havendo dançado
um súbito fado
farei dormir
meu sono pesado

( dormência de cobra
deste tempo afoito
- torcida no vidro
numa espécie de 8 )
*
*

REVOADA IV

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Permuta
*
-------------------------------------------------------------------( Para Zeinab )
*
*

Estanquei o vento
pra colher de teus olhos
nos vãos
de meus dedos
*
*

E agora devolvo
os pomos da alma
do sopro
dos rios
*
*
Verdes dias

Na guarida da noite
a folhagem guarnece

e todos os peixes
desfilam pra ti
*
*
*
*
*
A Quase-Harpia do Brasil de Sueste
*
----------------------------------- ( Para Aziz Nacib Ab’Sáber
----------------------------------
geomorfólogo, mestre )
*
*
Não
Hesíodo não mencionou a besta
dos espaços interiores da Terra Brasilis
assombração dos mares-de-morros
da depressão periférica
do planalto cristalino
embora compartilhe com as harpias
sua palidez
e o tal semblante donzel

*
*

Seu pescoço de coruja girava 360º
pra bisbilhotar
a gatimanha
alheia
a partir do pináculo do mundo
à maneira do nariz e das garras
de um quati
quando vasculham a rama podre
na catação de larvas

e os olhos estrigídeos, esbugalhados
terríveis
do predador noturno
denunciavam as mínimas imperfeições da presa
pelo simples capricho de criar distância
e humilhação
antes do surto
de creofagia
da vomição dos guinchos
e do parto do excremento
*
*
O olhar, em si
avançava
em ondas denunciantes
, ou melhor:
estendia-se num feixe de partículas
iguais àquelas
que desgraçaram a carcaça
de Marie Currie
sob o jaleco de algodão
*
*

Escreveu Sérvio
(apud Borges
in “El Libro
de los Seres
Imaginarios”)
que Hécate é Prosérpina nos infernos
Diana na terra, Lua no céu
e Deusa tríplice

assim como as harpias
são medonhas fúrias
no inferno
na terra
e demônios no céu


mas essa quase-harpia a quem me refiro
vai além:
onipotente
onipresente
onisciente
habita até mesmo o cólon transverso de Hécate
a cloaca das harpias
e ali fermenta
*
*

Homens que se renderam a seus caprichos
não souberam discernir a ogra sob as plumas
e
se escaparam
correram como loucos
com os ossos ausentes da medula
por toda aquela planície desdobrada de insônias
feito um Pierre qualquer
meio que relegado a ostra

*
*
Tinhosa
no
alto
de
um
mourão
duma fazenda falida
a bicha-fera assiste ao pôr do sol
com o ventre imundo voltado para o leste:
*
espera, sem afã
que o próximo calango-símio
germine de sua toca
nas raízes do capim-guiné
com toda a gala daquele rei da Trácia

- o incauto
soberano
que desvendou o destino
dos homens
e comprou a vida longa
ao preço
de seus olhos -
*
*

PRELÚDIO AO AMANHECER

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
À Retentora do Tempo
*
( Para Leiluka
fotógrafa, poeta )

*
*
Negro mar escondido nos olhos
-------------------da Valquíria
guardiã do tempo
- nume que capta os segundos
feito um menino--------------
a segurar um pássaro


E nos improváveis ângulos da procura, um náufrago
na madrugada fria de um sonho
( de um sonho lavado
no tempo estancado
na península)
liberta duas balsas
de pena & de paina


As ondas adentrarão naqueles pórticos
mas
sob a lança de Odin
nenhum enigma
será decifrado
*
*
*
*
*
Racional e Fórmula para uma Noite Augusta
*
*
( Para Viviane Mosé )
*
*

Orna-te de impressões
apenas
só de impressões
que o concreto é morte certa
*
*
Vero é o efêmero
o mais não vinga
impõe-se de fato
a sede, a saciação
*
*
Não vinga a água
nem fica o rio, mas o nadar dos peixes
e, indo-se o peixe, resta seu lume
vai-se a escama
*
*
E o que dizer do semblante plácido
no andar dos velhos
se nele o que enternece
não são cabelos
mas suas cãs ?

*
*
Tampouco vem a pompa da coroa
ou cetro
mas da realeza, que a realeza é vera
*
*
Vê:
desanda no tempo a casa-
encapa-se de mofo, escamações
derrui
Todavia, 1 minuto perpetua
num mesmo que minguante abrigo

- clara é a regra
*
*
Cobre-te
de sensações, então
que estas perduram

*
*
Toma uns matizes de miçangas
e sementes
assenta-os na lomba morna
de teus quadris
e caminha
por uma via de nácar
espalhando
toques / sabores / cheiros
*
*
E assim te faça:
luma-deusa
empinada e cristalina

*
*
E assim te queira:
ampla e farta
de tropicais fastígios
*
*
E quando pronta te apreenderes
liberta, órfã
de concretudes e arrazoados
dá-me tua mão e vem:

tinjamos de Chagall
a madrugada
até romper o canto
do primeiro galo
*
*

POSSO IR BRINCAR AGORA, PAI ?

Acrílica sobre MDF revestida com cera de abelha,
coberta com tinta azul e depois raspada com formão
*
*
*
*
*
A Respeito de uma Pedra
e seu Assentamento

*
( Para Isabela, aracnóloga
colega de minúcias
e Raquel Naveira
poeta, aranha
fiandeira )

*
*
O dia achatado sob teu peso
feito uma noite modular
e ilha
a umidade calada
um senso de eternidade
vermes retorcidos
na escuridão
bastilha
conchas espiraladas
------------como o tempo
crustáceos que viram bola
secreções
partilha
*
O mundo no fundo : viga-mestra de seu imo
Âncora * Alavanca * Atríolo na vastidão * Arrimo
*
*
***
*
*
E certas damas glaciais
que ciscam no eterno sábado
com olhos de frango------------
de granja
notam o trevo a teu lado
mas não a ti
que não trazes sorte
*
e tampouco te percebem
os maridos práticos
rusticanos
que montam éguas de folha-de-flandres
e esmagam páginas de mistério
com botinas de bico de aço
e cheiram colônia, sulfato de amônia
e avaliam os porcos pelos traseiros
*
*

Mas a mim, que perdi o traçado
e qualquer referencial
redundado em correnteza
és deuses e vertigem
sopro e pulsação
rebrota
*
*
E a bem da verdade
só a mim e a ela
- Isabela -
interessa perceber
a demência dessa aranha
que torceu um túnel de seda
sob teu ventre
e dali, do eixo
de seu remoinho
louco
conduz um farfalho mouco
nessa fresta de silêncio
( com dois pares de pernas
apontados para o além ) :

( feito dois maestros
atados num cordão de juta
a reger uma sonata )
*
*
*
*
*
Mensagem aos Pássaros do Sul
*
--------------------------------------------( A Pablo Neruda )
*
*
Outro pássaro emerge do vazio
e me desperta

*
*
Eu, inexprimível tordo
desbotado na crosta do barro
já nem sei onde foi que embrionei-me:
se em Ushuaia ou Pucallpa
ou nas ruínas de Cuzco ou Copán
Mas sou da América
e vasculhei toda esta terra de poleiros
camuflados no verde
onde tantos nativos foram exterminados
por ouro / prata / pirita
e cem motivos de força maior
*
*
O outro pássaro investiga meus gestos
com olhar estrangeiro
e embora não brilhe intenções
de rapina
é melhor ter cuidado nesta América austral

pois aqui
há pássaros que parasitam ninhos alheios
e também os que imitam o pio de outros pássaros
para usufruir da cortesia do bando

e muitas vezes nossos próprios pássaros
incluem em seus piados estranhas notas
de outras melodias
que solfejamos sem compreender
*
*
Não sei se concebi-me ao sol
ou ao estouro
de um trovão de veranico
mas sejamos justos a nossos dialetos
até que uma águia nos persiga a todos
*
*

O MALINHA

Acrílica sobre MDF impermeabilizado
*
*
*
*
*
Na Mata, à Noite
*
-------------------------( Aos biólogos
---------------------------e curiosos da natureza
-------------------------- saberão o que estou dizendo )
*
*
1
A errância noturna
do urutau e das serpentes
habita também o arcabouço
e tudo o que há de envolto
pelas costelas
e os outros
ossos

está no tutano / nas gelatinas
no que pulsa e se divide
no que escoa
*
*

2
O breu é pura caliça
por onde a carcaça vagueia
jubilosa
e a lua, sempre cândida
abrilhanta a manta verde
que antepara o escombro
e tudo e nada redime
e nada e tudo conforta
*
*

3
Cantam bichos
no rebuliço de um ribeiro
e reverbera nos troncos
matacões

e há também estalidos de galhos
bambus que choram
rumores de meus pés
a triturar a sarapueira
e seu inquilinato
à beira do sem fim
*
*
Outros 1.000 diabos
ouriçam criaturas ocultas
e decentes

mas tem, sobretudo
a sibilante agonia do gás
ao tentar irromper
pela barreira de amianto e lúcifer
do lampião
*
*

4
Duas lesmas assediam
uma pétala
no fundo de uma pegada de anta
e que este culto secreto
( a alguma divindade molusca )
jamais passe desapercebido
pois
é a suprema comunhão do antigo
propalada
na coreografia do silêncio
e grafada
nas linhas cintilantes
de muco
*
*

5
Vaga-lumes

Um macho e uma fêmea
de vaga-lumes
encenam o mistério
da multiplicação dos fogos
e ardem, imóveis
na axila de uma folha de liana
hermafrodita
*
*

6
O bacurau ficou lá fora
Aqui recende a mijo de gato
*
*

7
Cobras procuram ratos
Raízes sugam
*
*

8
Não queira entender
determinadas coisas:
*
*
Certos cogumelos
só são vistosos à noite

Mirar estrelas
é bem mais
que transformar-se
em grão
*
*

9
Entre tantas orquídeas
uma orquídea
obcecada por um desejo
espera o sol e sua abelha
azul-metálica
tão fiel quanto os cães
de um velho cego
*
*
Que Deusa
marchetou-me andarilho ?
*
*

10
Errar à noite
é vasculhar
uma bolsa de mulher
madura
------------enlevar-se nos
------------perfumes
------------
e tombar perdido feito uma chave
*
*
*
*
*
Fé Murina

( Ao Juca, amigo de sempre )-------------------------
*
*

O olho na fresta
as molas
por disparar
o mundo
prestes a cair
em chinelos
vassouras

*
*

( Tudo que almejei
na quirera
veio com a cobra e seu oco
com o gato
e seu eco
com as pulgas )

*
*

O olho na fresta
ressecado
feito um poeta
magro
cinzento
a tossir
num terno de tísica

*
o bigode
a gerir sua esquiva de morte

*
*
Reagir
é
velar

*
*
O rabo
é escora

*
*
O rabo
no chão
*
*

CRIANÇAS TRAVESSAS, PAIS MALUCOS

Acrílica sobre MDF revestida com cera de abelha,
recobera com tinta preta e depois raspada com formão
*
*
*
*
*

*
(Para Duda, amiga fenomenal-----------------------------------------
que põe o mundo em saias justas)----------------------------------------
*
*

Uma idéia se debate
no chapéu:
ave xucra encarcerada com o gato

*
*
Sangra a borda do bico
*
nevam as penas cativas
*
esgarçam-se as unhas
como seriam as tardes
num orfanato de vírgulas

*
*

E o mundo farta-se de vespas, pedras que reluzem
ondulações de mulheres, meridianos, chacras
tramas de escritores mortos
mamelucos
mujiques tomando sopa de repolho
cocheiros cochilando nos coches
das infindáveis Londres vitorianas
enquanto a égua alterna a posição das pernas
e vapora pelas ventas

*
*
Regalo remar nesse rio
que serpenteia em seduções

*
mas só os loucos de pedra
são reais
e a insanidade é a meta

*
*

Enquanto houver celacantos
e moringas de água fresca
atiremos o chapéu:

*
vinga, corrupião medroso !
e danem-se os projetos

*
*
*
*
*
City-Edge Night Club
*
---------------------------------------------( A Charles Bukowski
---------------------------------------------aos Beat
---------------------------------------------aos naufragados )
*
*
Primeiro
pinçou o cabinho da cereja
com o dedo que acusa e o dedo mais gordo

*
*
Depois
como fazem as putas
ao reivindicarem barganha mais justa
lambeu a bolota suada de Martini
enfiou-a na boca com dedo e tudo
rodou-a, rodou-a com a língua
a lábia entreaberta
e castigou-a de leve
com os incisivos remontados
num showzinho manjado
à elite de bêbados
*
*
Vez ou outra
o pedúnculo confuso espiava pra fora
como o olho de um caramujo sem concha:
*
avaliava a multidão de tarados
com âncoras e cobras estateladas no corpo
e voltava, recalcitrante
para o interior mais sutil
daquela gruta compêndio de história

*
*

E seu dedo dançava na borda do copo repetindo um Ó

E o garçom suava em branco e preto

E ela tinha joanetes

E havia aquele som de trompete

E Miles defunto nem se importou

E a voz do cantor saía do duodeno

E seu nariz era adunco

E ratos cochichavam sob a pia

E alguém temia um exame de sangue

E, no agito, um silêncio de árvore

E cupins roíam o forro

E alguém pisou num chiclete

E eu pedi outro Jack

E a cereja se esgarçou na boca

E a cereja tinha a cor da calcinha
*
*

COMPOSIÇÃO EM VERMELHO

Acrílico sobre madeira
*
*
*
*
*
Natureza Morta
*
*
Fruteira sobre a mesa
réstia de sol ao lado do copo:


------------este o cenário
------------ao acharem a velha
------------naquela manhã
*
*
Deixara a maçã intacta
Luzia na água um sorriso-rã
*
*
*
*
*
Rei Deposto
*
------------------------------------------------------------( A uma mulher de botas
------------------------------------------------------------Que depois tirou. )
*
*
Oh dona do tempo e das milhagens
filha do breu e seus algozes
porém abelha
na latidão dos albatrozes
rêmige ao vento
*
*

Guardaste-me o mistério de uma flor
adventícia
rebentada quando menos se esperou
entre montanhas fincadas de araucárias
e os mares de colinas da coxilha feminil
*
*

Pois foi ali
exatamente ali
na beira daquele mar já meio torto
- meu mar mais morto -
que teu primeiro par de folhas
fendeu-se na flor da areia
pra que verdejasses sob o sol

*
*
Sei, de alguma forma
que hoje rutilas não sei onde
entre os berregos dos cabritos
e os estalos do canário da terra
- os mesmos cantos
que a cada dia reprojetam a solidão pampenha
por onde os rebanhos pastam
e as pequenas aves dormem aos pares
arrepiadas
aquecendo-se mutuamente na noite minuana -
*
*
Debaixo dessa abóbada que não compreendo
coaxo teu nome numa folha de narciso
e aguardo o vulto da lanterna
e a dor da fisga
*
*

Mas já fui rei
*
*

COMPOSIÇÂO COM MÓBILE II

Acrílica sobre tela
*
*
*
*
*
Mulher e Pássaro
*
( A Joan Miró )


Tangências
Luzes de cristal
*
*

Uma e outra
a esfolar
o imolado da pele


e tudo se vai
nada fica

*
*
Mulher e pássaro
- único pomo -

*
vindo e indo
com dança ou música

*
*
Egos e ecos
flamejam na derme
e seu suor

*
*
E a insana translucidez do vidro
sem um mínimo cristo
incrustado
tritura a carne e a pilha de ossos
*
*
*
*
*
Premonição
*
( Para José Geraldo Neres )
*
*
O tirano vai morrer
seu fim está próximo

*
*
Deve partir
em 23 de agosto p.f.
ou noutra data qualquer

( talvez o faça em dois turnos )
*
*
À noite vislumbra
um santo e um sopro
As folhas engendram
um discurso de beira-cova

*
*
O tirano vai morrer
Todos sabemos ( ! )
*
*
Já se pressente a cauda de pavão
a ponte de ferro
um sapo de capuz

*
*
Muitos olhos chorarão
bocas chorarão
narizes
ouvidos
*
*
Talvez haja pânico / suicídio
*
*
Quando o tirano morrer
a impotência
rondará o cativeiro
depois
tudo voltará ao marco zero:

novo tirano será requisitado
antes que um sussurro
movimente a praça
*
*

INFÂNCIA ANTIGA II

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Conformidade
*
( Ao amigo “Tuco” Amalfi-----------------
pintor, poeta, mago das cores-----------------
pai das impossibilidades )-----------------
*
*
trancar porta
e outra
se preciso for

abrir espaço
e outro
caso convenha

viver a vida
dos homens
manter o método
cabresto e rima

mas banir o sopro
do incondicional


: o vôo branco
----------------
da ave nova----------------
o sonho inveja
----------------
e a razão deturpa----------------
*
*
*
*
*
A Breve História de Sexta-Feira
*
( Para Neiva Guedes, bióloga,++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
mãezona da Arara Azul++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
amiga da humanidade++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
baleia de luz )++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++
*
*

O pequenino Sexta-Feira
morreu numa manhã nublada
após doze dias comendo goiaba
e enchendo a casa de alegria
*
*
Caído do ninho quase sem penas
o bichinho minguava
no fio do asfalto
e piava de frio na noite medonha
*
*
Desolado !
*
*
Desolado
e sem remédio
como um pontinho
a carvão
( feito por alguma criança incauta )
a flutuar
no meio do mar:
*
.
*
*
Quis compreender
o que projetava
o breu e o vento e o lobo da fome
a um bebê gaturamo
que perdeu a estribeira
numa quase primavera
mas nas horas
de apuro
a cachola humana
é só um poço de limites
*
*
Bem...
quis o destino
que eu precedesse
o gato
e então dei-lhe um ninho
improvisado, chinfrin
numa caixa de sapatos
*
*
E quero crer que por doze dias
Sexta-Feira foi feliz
*
*
Aqueci-o com lâmpada
e alimentei-o no bico:
banana, goiaba
pêssego, mamão

e cada pio
do bichinho
nutria meus minutos

e cada chilro
abrir de bico
davam-me a ilusão
de ter na alma
uma baleia
de luz
*
*
Sexta-Feira aos poucos
foi emplumando
e, de pena em pena
mostrou-me
que o cerne do mundo
está nas coisas simples
nas coisas esquecidas
não reivindicadas
*
*
Miudinho, morno
tagarela
e com o olhar suplicante
de quem só tinha a mim
deitou em minhas mãos
seu próprio destinozinho
*
*
Da forma mais cega
confiou
Como mulher nenhuma
nenhum parente
nenhum amigo
ousara tanto confiar
*
*

Mas um dia
- numa manhã de sábado-
Sexta-Feira amanheceu calado
*
*
O sábado não se deu
a Sexta-Feira
e todo o alento do universo
petrificou, miudamente
na caixinha de sapatos
*
*
Tentei reanimá-lo
assoprei sua bundinha
implorei ao Deus Abrâmico
a Hera, Cernunos, Brán

- mas nada disso adiantou
*
*
Enterrei meu filho
no jardim
à sombra de uma árvore
camuflada por filodendros
*
*

Naquele sábado
guardei luto
*
*
No domingo
não quis prosa
*
*

A segunda
foi tão vazia
*
*
E na terça
uns idiotas
derrubaram as duas torres
de Manhattan
pra protestar
contra a idiotice humana
*
*

E eu resolvi
escrever
esta estória
mesmo com essa coisa
nos olhos
que é pra fazer a vez do canto
que Sexta-Feira não cantou
*
*

FLECHAS NÃO ATINGEM O LANCEIRO DO BEM

Acrílica sobre tela
*
*
*
*
*
Ardência e Conjunção
*
*
És inspiração e delícia
*
*
Enveredas por minhas veias
rutilante e lúbrica
desfeita em mil faces
num cardume de arrepios

*
ora urdes-te em seda, ora em manancial
plantel de potras no cio
diuturna fêmea
*
*
E ardes+++++++++em meu peito
e latejas+++++++++em meu falo
e refletes-te no claro de meus olhos
*
pra pernoitares
e amanheceres
aninhada em meus braços
enovelada em minhas pernas
como cobra
sabedora de mim
*
*

Nosso sumo:
*
*

Amor gaio
Carinho de mãe mamífera
Fome de lobo

*
*
E sol e lua
E terra e água
E fogo e tora
Semente e ave

*
*
Percorres meu corpo
e seu eco
numa lambida em beco escuro

*
*
Regar as flores
e ejacular estrelas
é só o que nos resta

*
*
E
sublimar
*
*
*
*
*
Aos Olhos da Poeta
*
*
Teu olhar tem algo, menina
que não sei se de chuva ou de sol
mas imploram ilhas às avessas
e também não são lagos
são anti-ilhas
imensidões de olhos
a confinar brilhos e búzios

*
e alguma coisa deles respinga
enferrujando-me as juntas
- é ruim ser velho -
talvez um sal

*
*
Mas tua face
e seus contornos e a pia angulação
com o colo
tem um halo de santa
e má dona
e é esta última inspiração
que oxida-me as roldanas

*
*
Amei teu vulto e aquelas páginas
mais que as outras

*
*
Vou dormir
Já passa das 5
Não sei se rezo ou me escancaro

*
*
Em teu olhar
“o cheiro que vem de dentro das meninas”

*
: pêssegos
cidra
inquietação
Um musgo reveste-me as gretas
*
*

PARA A FESTA

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Fado
*
( Para Luís Serguilha )
*
*
Há mais de 7 palmos
esculpiu uma guirlanda
na hora do besouro
-----------e na cova do besouro
-----------deixou semente de angelim
*
*
E foi naquele labirinto
sufocante e cingido

-----------( não obstante certos mareios
-----------de umidade ilusória )
que brotou uma árvore
já com um pássaro pousado
um balanço de cordas
uma filha sentada

-----------e tudo
e as gargalhadas da menina
deram ao mundo sua canção

*
*
Dedica-se
agora
a rir e a empurrar a criança
em seu destino de nuvem

*
mas, resoluto
-----------o inseto
escarafuncha a galeria por dentro
*
e esse eterno revirar
já rendeu
uma perfuração de úlcera
alguns chiliques

-----------e aquele ar
-----------de quem um dia
-----------pisou na merda
*
*
*
*
*
Ao Poeta Fabrício Carpinejar
*
*
A noite e suas entranhas
Giram moinhos quando sou milho
sob mó
*
*
Um alfanje parte o vento
com sua lâmina de ferro
como de ferro é meu sangue
*
e a aldrava azebrada
anuncia um fantasma
que o filho não chega
*
*
O lume único da víscera larga-me aqui
carpinejando sombras
*
*

ANOITECER COM VAGA-LUMES

Acrílica sobre tela
*
*
*
*
*
Desga(m)bamento
*
-------------------------( Ao arquiteto Santiago Calatrava )
*
*

Um pequeno marsupial ladino
de cauda preênsil
sul-americano oportunista
parasitado por dentro e por fora
onívoro
sucedido nas artes de revirar folhas
e trepar em muros e árvores
com suas patas abençoadas
por dedos oponíveis
e aquele rabo tão versátil quanto pretensioso

*
*
Pois bem-
esse animal gracioso e
incompreendido
de cheiro forte
e uma história longínqua

------------com um bando de filhotes
------------grudado às tetas
------------dentro de uma bolsa inusitada
dependura-se agora
no alto daquela espécie de gradil
ousado e imponente
de uma branquíssima ponte

------------de Calatrava
nesta manhã de sol ardido
na mais catalã das Barcelonas

------------com traças por fora e por dentro
*
*
E ninguém que passa pela ponte
nota o bicho
nesta situação morfética
com ares de malote extraviado
feito beata na zona
e, portanto, quem passa pela ponte
mal passa pela vida
*
*
*
*
*
Para Edvard Munch
*
( Para Alberto Pucheu )
*
*
De novo, a ponte
Outra ponte
Bem mais pinguela tosca
descalavrada
na expressão
do grito
*
*

Rota alazarada
pons inutilis que nada une


que, se não tão nórdica
carcomeriam-na
cupins e brocas
teredos
ácidos orgânicos

à maneira do verme
que devora a massa amorfa
entre as orelhas surdas
do espavorido gritador
*
*

Pobre atormentado Munch
sentado, magro
em seu estúdio abarrotado de telas
angustiadas
a cavalgar um sobrenome
tão crocante quanto breve

*
*

Edvard
esfrangalhou-se
num colapso em 1908


mas, resfolegado em seu “Mural ao Sol”
foi à forra nos raios sobre o fiorde de Kragero

*
*

Seria ali
que os lemingues suicidam-se no mar ?
*
*

A CIDADE E O LAGO

Acrílica sobre MDF impermeabilizado
*
*
*
*
*
Esperança
*
*
nem tudo
está acabado

a pedra
o metal
a pedra
coalescem
com as idéias:
um só domínio

do expirar dos santos
algo de incógnito
volatiliza
no silêncio em trâmite

mesmo assim
resta o bagaço
o sarro
o arcabouço

e a crina
daquele olhar
ainda cometa
a ser seguido

*
*
*
*
*
O Bebê e os Ratos
*
*

Dois ratos empurram um repolho alameda acima
e o bebê sonolento
com aquela solenidade
de quem só diz a-bá
chupa o polegar
molenguinho
e cria arte na fralda

*
*
A hora passa
A tarde esquenta

*
*
Nem homem nem rato
compreendem esse mistério:
*
em toda esquina há condutos
por onde entram repolhos
e a vida se define
*
*

BEIJA-FLOR

Acrílico sobre MDF impermeabilizado
*
*
*
*
*
Flama-Guia
*

[ “é bom ter cuidado com a língua tagarela-----------------------------------------------------------
quando se agitam no peito as paixões”------------------------------------------------------------
- Safo de Lesbos - ]------------------------------------------------------------
*
------------------------------------------------------------( Àquela
------------------------------------------------------------que não ouso revelar: R. )
*
*
Levassem-me pelas ruas
desvendassem trilhas
tomassem atalhos
na noite escura
*
*
Desembramassem
as meadas do tempo

*
-górdios da perdição-
*
e, como o tempo
perpétuos fossem
e sem fronteiras

*
*
Ordenassem germinar orquídeas
das horas foscas
da cal, da pedra
do salitre
*
desentocassem bichos
de seus covis, de suas frestas
mais remotas
mais sutis
mais dissimuladas
no emaranhado verde / ocre
dos barrancos e ravinas
*
*
Que no transgredir do pânico
soprassem a espuma
do que não tenho a partilhar
como sopra a brisa morna
todo o incenso
da tragédia anêmica
em Calcutá

*
*

Apontassem-me as três-marias
e desdissessem meus contraditos
sempre que embarcasse nos trens
em movimento
a esculpir monstros sem face
na latidão dos céus noturnos

*
*

Pousassem plácidos
compadecidos
mas que também causassem
( e sobretudo )
a queda da lua, a conjunção
dos astros
*
a filtração do mar viscoso
pela esponja primitiva

*
e incitassem-me os lobos
a uivar
e fossem mornos

*
*
Que na preguiça
dos verões do novo mundo
espraiassem úmidos e íntimos
doces e impetuosos
sobejos
*
e me arrastassem
na profusão de corpos
como um cão conduz um cego

*
*

Ah esses olhos...
*
*
*
*
*
Cruzeiro Marítimo
*
*
A claridade da manhã salpicada de rorejo
atravessa as frinchas da veneziana
e se atira
sobre essa pele de damasco
, oh gitana de Guadix
*
e ouso inferir
que tua musculatura
rija
de tanta noite
exora massagens
um passeio
de minhas mãos


mas
como dormes
com essa expressão
cevada
e plena
refreio-me
a vigiar
as subidas e descidas
de teu ventre
meio mouro
*
*
E deste ponto central
da sobrequilha
onde o mastro prende a vela
a uma doidice tremulante
eu
marinheiro laico
dou-me às vagas
desse mar bronzeado
jamais singrado
por um discípulo de Sagres

e naufrago nas bordas d’uma ilha

desse mais
tormentoso
Pacífico
de teu
sul
!
*
*

REVOADA I

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Estrada Nova
*
*
Pelo umbral da expiação
venha a outra
a companheira
ter conosco a divindade
de um delírio


mas seja breve
e relevante
que o retorno de um engodo
é mero acúmulo de cal

*
*
Pelo umbral da expiação
tragam os ares uma pétala
um som flauta
o simples vôo de uma pena

*
*
*
*
*
Barganha Póstuma
*
----------------------------------------( Ao poeta Carlos Nejar )
*
*

Dizíeis que habitavam
as negruras
o fundo do poço do calabouço
, as vias limosas de Dante

*
*

Mas tudo o que vi
foram luzes no esmalte dos dentes
, os pestanejares constantes
das quatro lamparinas
ocres
e das duas safiras
que me içaram
como bandeira
*
*

Tudo o que vi
foi o vôo de três gazelas
no solo arado ao sol do estio
o manto tênue
como asas de mariposa
*
*

Relinchos ouvi
e foi tudo

*
*

O que cherei
, aniz

*
*

Quanto mesmo
declarastes
que valíeis
na ante-sala da redoma ?

*
*
Pois pago em dobro
*
*

REVOADA II

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Fluvial
*
( Para Luiz Alberto Machado )
Mais que um rio
fantasias
inundam noites e abismos
*
sem remédio !
*
*
Visco diáfano
cataclismo
fusão de terracota

*
*
A jusante
sabemos
pelo grito:
*
amor
ódio
paranóia
*
*
*
*
*
Solidão em Sépia
*
( Para Solange Rebuzzi )
*
*
Habituou-se ao silêncio
e ao coração por companhia

*
*
Quando duas pernaltas
destacam-se do pântano
e descrevem uma parábola
engole a lua
como um peixe
*
*

BEIJA-FLOR, JABUTICABAS

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Ao João, Meu Filho
*
-------------------------( ao completar 5 meses
------------------------------------- inspirado numa foto - )
*
*

O que vislumbram
olhos
que sequer alçaram-se
para além das ripas do berço
do silêncio frio da grade do jardim
da vidraça embaçada na noite escura
na qual um dia, com teu dedinho mágico
haverás de rabiscar uma garatuja
fadada a ser poema ?

*
*

Sim, há um horizonte lá fora, menino
revoadas de garças, coaxos, cheiros de jasmim
e um sol e uma lua que sempre se renovam

*
*
Amigos serão poucos, é verdade:
corações empedernidos e almas de cera
têm brotado dos pântanos ultimamente

*
*

- sinal dos tempos
*
*

Ajuda-os, meu filho
*
*

E que sejas sempre o que essa tua carinha expressa:
a própria leveza, a própria bondade

*
*

E nas horas mais frias das noites cruentas
sê o canário na mina de carvão:

*
*
-------------------------------------------------
Ilumina então a gruta com teu canto
*
*

COMPOSIÇÃO COM CRIANÇAS

Acrílico sobre papel
*
*
*
*
*
Pêndulo
*
*
essas córneas
vibráteis----------------------
efêmeros címbalos
de Argos e mares
se prendem

nos pontos----------------------
além-imagináveis
de arcos celestes


fachos em riste
desvanecem soslaios
d’alegria decídua:

flashes aéreos----------------------
imprimindo contornos----------------------
de um modelo abstrato----------------------
*
*
*
*
*
Antes que a Noite Morda

----------------------------------------( Para Ana Lúcia Paterniani
------------------------------------------amiga de lonjuras temporais )
*
*
Cá estamos
com essa exclusiva insanidade
cotidiana
roendo unhas
entre caixas de aprazolan
e n cápsulas de sertralina,
cloridrato
*
*
A prescrição funciona
O pânico foi emoldurado
entre duas lâminas de vidro
e sustenta-se num parafuso
enfiado na parede
de um quarto
que evitamos
*
Bem-vinda é a chuva
nessas noites de alforria
conquistada
a faca e foice:

parte da água
percola nos jardins
e na terra dos vasos
e, como um homem comum
dará boa cama e boa seiva

a que despeja no telhado
- ó triste fado -
percorre rotas contorcidas
no interior de ductos
que quebram-se em ângulos
nos túneis de metal galvanizado
antes de lavar o chão do pátio

e a chuva do pátio
terá destino mais prosaico
num metrô de PVC
que desemboca na sarjeta
*
**
A estória dessas águas
sumaria a história de uma vida

e nesta noite de ação de graça
e bioquímica domada
pegamos uma tela em branco
pigmentos, pincéis
e criamos cenas de uma infância surreal


- P.S. -
*
*
As águas das pias, dos chuveiros
dos vasos sanitários
sentenciadas e servis
terão destino asqueroso
*
*
Antes que a noite morda
bendita é a chuva na loucura nossa
*
*

CENAS DA INFÂNCIA

Acrílica sobre tela
*
*
*
*
*
Reza Antiga
*
*
Penso em ti e a madrugada se arrepia
*
*
Preparo o peito
para a espera de teu rosto
-------------como um lobo
que sozinho
ao entardecer
vislumbra a prata na ereção da lua
-------------( íntima e mágica
-------------ainda que intangível )
*
*
Despojo-me do supérfluo
e sinto o hálito de meu próprio almíscar
: halo que envolve o cão
brotado do enlevo túrgido do macho

-------------volátil
à imagem lúbrica da fêmea
*
*
Suplico a Gaia por teu corpo serpentino-
desgarra, Mãe
-------------
a corça negra do rebanho
no breu da noite
-------------traz-me a caça, oh Cornífero !
*
*

Vejo que a vida é gastar-me em teu calor
-------------rolar na relva
-------------
no néctar de tua flor
*
e então correr o campo, sem pudor
*
*
*
*
*
Os Espaços da Casa
*
( Ao poeta Manoel de Barros )
*
*
Há nesta casa muito espaço não preenchido
*
*

Meus cães brincam à toa
uivam e ladram ao bel-prazer
mas com hora certa pra cada coisa

*
*
Nunca vou compreender
como um fantasma inglês
de guarda-chuva e colete
baixou no corpo de meus cães

*
*

Há tanta indagação pela casa...
*
*

Meus peixes também questionam
no azul-da-prússia:
*
são Nijinskis do remoinho d’água
do confinamento, das borbulhas
Vêm à tona avaliar meu cheiro
( e a possibilidade do motivo ser outro
traz-me a dimensão das lacunas da casa )

*
*
Meus pássaros, cidadãos do mundo:
Pavarottis, Bidus, Caballés
Nureievs do viveiro
( cujo fundo ressuscita Pollock
na sua obstinada procura
de si mesmo )
e sei que os minutos seriam infindáveis
não fosse a arte
de meus pássaros

*
*

Uma corruíra fez ninho na varanda
Ela também interroga
mas não demonstra
Move com graça
e astúcia
pelos caibros, orifícios
caçando aranhas ensimesmadas
que sonham a vida inteira

*
*

Beija-flores pairam nos bebedouros
pois nem tudo é doce por essa vida afora

*
*

Chopins, rolinhas e pardais
dividem as sementes do santo dia
nos cochos espalhados no quintal

*
*

Contudo, ainda há brechas pela casa-
nichos vagos, ranhuras, nesgas
onde só idéias se comprimem

*
*

Bem podia Manoel
poeta do nada e das minúcias
ver as formigas do jardim
a domar seu universo sigiloso:

*
erguem vulcanitos
na terra carminada
e marcham organizadas
atávicas
e cogitam

*
*

Já terminei namoro por causa delas
Matar formigas é pior que traição

*
*

Há muita vida na casa
deveras
e mesmo assim ela é um queijo suíço-
império de grotas, labirinto d’ocos
onde se aninha
o lebréu das fantasias
o celacanto das quimeras
o grou da circunspecção
*
*
Mundo das noções-
isto é minha casa !
Aqui, até as samambaias ponderam

*
*
O alpendre é a biblioteca
cheia de vasos com plantas refletindo
tramando cenas, deduzindo fórmulas

*
*
Nas manhãs de sol
borboletas rolam o planeta
qual besouros nobres e pueris

*
*
Quando a noite se despenca
alheia a tudo
sou preso em pensamentos
tão viris
quanto a lança tesa
dum feroz guerreiro banto

*
*
Então dobro-me
na meia-luz
e vejo um par de olhos
amendoados
profano-sacros
delineados de negro

*
e depois
cílios lambidos de rímel
lábios entreabertos, de batom
púbis, ventres, quadris

*
e o hálito raro
de anis
brotado da língua morna
dos dentes alvos
que ressaltam na penumbra
e dardejam
e flamejam
e desafiam

*
*

E, por fim
as curvas sigmóides
meias-taças
colinas, branduras de cetim-

*
*
A benta essência
da Deusa-Lua dos antigos
crescente enigma:

*
o ser contido que de repente se escancara
o ser infindo que gera e nutre e engendra o eterno
o ser que desanda em sangue
quando se doa e não concebe
e aponta o norte na trilha cega do silêncio

*
*
Mulher !
Nada além do arquejo
de roubar da noite uma mulher

*
*

Que seja a tíbia dona imaginada
( musa do poente sórdido )
que nunca se revela por inteiro

*
ou a pálida ninfa
galhofeira
que deixa apenas se entrever
( a duras penas )
a menear-se nas touceiras
da jornada

*
mas que, súbita
entrega-se da forma mais exígua
e então se vai embora
levando consigo a sustentação
do império

*
*
Sim, minha casa tem hiatos
na noite arguta

*
*

A fauna e a flora
respeitam essa calada

*
*

Nenhum latido, nenhum pio
irrompe nesse fado

*
*

Talvez intuam
que é solidão contemplativa
ermo de arroubos
conquanto não quisera sê-lo:
o cio vil
e sem recato
do gênero mais rude

*
*

Essas noites caducam
sem destino ou nexo:
grenha fugaz
da proibida amante
a roçar, por um minuto delirante
o rosto vincado de um marujo
subalterno

*
*

Finda a treva
e desde sempre, a corruíra
ressurge:

*
adentra-me os ouvidos
vasculha
as cavas mais internas
atrás de grilos e esperanças
naufragadas

*
*

Ao primeiro
chilro
o novo dia sai do útero
*
*

DESLUMBRAMENTO

Acrílica sobre papel
*
*
*
*
*
Elvira
*
*
-----------------------------------------------------------( Ao poeta Benjamin Péret )
*
*

Às peles de Elvira
não bastava o chenile
no colchão
iam ao chão
tocavam as poltronas de napa
naqueles dias suados de calor
( e abraçavam as pernas tortas
da penteadeira art nouveau
como um tipo de ameba
a fagocitar
uma espiroqueta orgulhosa e vã )
ganhavam a cozinha
o espaço debaixo da pia
do fogão
vazavam pelas ruas
, bem me lembro

*
*

Entravam nas bocas de lobo
as dobras de Elvira
caiam nos arrabaldes
( não havia favelas então )
cobriam as colinas das fazendas
sufocando o gado
achatando o terreiro
dos porcos
os canaviais colinosos
amolgando planícies
engolindo varjões
, ah se me lembro
*
*
As crianças temiam Elvira
quando os pais demandavam silêncio

e, no entanto,
um eterno cheiro de bolo
exalava da casa do papão rosado
como o aroma do cafezinho sempre fresco
represado num bule de ágata

*
*

Quando mocinha
Elvira já era
uma Vênus de massa
paleolítica, italianada
- vim a saber depois
*
*
Já tinha a cabeça sumida nos bobes
feito uma batata
num panelão de brajolas
nas domingueiras paroquiais
*
*
E ria, como ria...
Ria como se fosse morrer

*
*

Ao partir
já com 80 e tantos
não houve caixão
pra tanto perímetro:

*
improvisou-se um imenso sudário
com sacaria de estopa puída
doada pela beneficiadora de algodão
e todas as mulheres da cidade
ajudaram na confecção do manto
com cara esquisita
*
*

No sétimo dia de costura após costura
- os dedais já gastos
o cadáver roxo
os olhos saltando, a língua pra fora -
os homens da corporação tentaram embrulhá-la
com solenidade não convincente

*
mas nem o coração de Elvira
coube nas léguas de pano
pois era, de fato, uma santa
e tudo nela
coração
*
*

Ninguém chorou por Elvira
e hoje as crianças têm vergões na bunda
de tanto fazer bagunça
*
*

INFÂNCIA ANTIGA

Acrílico sobre tela
*
*
*
*
*
Na Sala de Espera
*
----------------------------------------( Para a amiga Zoe de Camaris
----------------------------------------que apresentou-me o poema
---------------------------------------"A Corça Branca", de Jorge Luis Borges )
*
*
Há algo de estranho
neste espaço
Coisa que não se enquadra

*
*

Embora sejas bela, Matilde
bela e cheirosa
e tenhas a pele perfeita
e covinhas na face
e no lombo
ver-te adunca, compenetrada
----------------------assim
nessa escrivaninha
com pilhas de processos e arquivos mortos
traz-me a imagem de uma tênia tristonha e desconcertada
fita herdada de porco
num intestino enfartado
e moroso
*
*

As revistas de cultura e moda
com fotos de gente famosa
na sala de espera
o frigobar complacente
empanturrado de garrafas de club soda
--------------------frios
--------------------latas com estampa diet
só condizem com a pompa
e as papadas dos patrões
que percevejam no fundo do prédio

--------------------mas não contigo
que certamente chegou
em dois ônibus
de uma gleba distante
pra assolar-se aqui
onde as cobras se enrodilham
e os agiotas
cobram
*
*

Sei que dás um duro danado na vida
e que é teu sangue que faz o giro
deste moinho sem vento
mas, neste cubo adventício
não és mais que um guarda-chuva
aberto em noite seca
*
*

E quando der 18 horas, Matilde ?
Haverá alguém a tua espera
pra lambuzar de noite
o cetim rosalvo
de tua pele
--------------------
circuitada de celulose
e toner ?
*
*
Quem
pra pincelar
um brilho úmido
na lua nova de tuas dobras
e fazer-te rir ?
*
*

Haverá quem
ao menos te imagine
a corça branca do sonho matinal de Borges

--------------------emancipada
numa agreste balada da verde Inglaterra ?
*
*

Ou serei apenas eu, Matilde
--------------------( que acabo de aprender teu nome
--------------------nesse crachazinho surrado
--------------------alfinetado sobre o olho sestro
--------------------da lontra
--------------------que escondes embolada na rede
--------------------enquanto o outro
--------------------- o direito -
--------------------me espia como um trasgo
--------------------através dos orifícios
--------------------dessa renda
--------------------de sargaço)
a ter essas visões
de ímpeto portenho
no arremate roxo
de uma quinta-feira assim, regrada ?

*
*
*
*
*
Sobre Farelos & Partículas
*
( Para AnaLuKa, a dama do sótão
azul
abelha metálica que visita orquídeas
e se embriaga de partículas
brilhos, grãos de pólen, gotículas
migalhas
polvorins... )
*
*
Pequenas partículas fazem o lastro
no calado
------------do batel dos sonhos

e as fragatas
ancoradas
na angra dos sentidos
moldam o baldrame
------------a viga-mestra
de tudo o que nos ceva

*
*
Gotas aspersas no ar
penas soltas
grãos de pólen

*
- eis a síntese
do que
importa -

*
( como pouco bastava
a Thoreau )
*
*
Duvidas
?

Então olha o céu nas noites
sem lua
ou te aqueças, te enoveles
n'outra alma
enternecida
noutro corpo
que te busque
nas manhãs de preguiça & almíscar
chuvenisca
&
cerração
*
*

Pois tudo mais é redundância
*
*

ENIGMAS

Acrílico sobre duratex impermeabilizado
*
*
*
*
*
Holos
*
*
-----------------------------( Para Heloisa Buarque de Hollanda
-------------------------------incentivadora )
*
*
Um destino
esteve em suas mãos
Soprou ao vento

*
*
Parte da poeira
varreu estepes e savanas
um punhado
decantou no fundo d’água
a maior fração brilhou estrelas
*
*
Agora enxerga
que nunca houve um fio:

*
*
A teia se tramou
em mil destinos
Armou-se em pedra
amores e regatos
como diziam os que tinham fé na terra

*
*
E hoje é tudo
*
*
*
*
*
Carta de Recomendação
--------------------------------------( Aos burocratas )


A quem interessar possa:
*
*
Recomendo a passagem
da alma portadora desta
pela catraca do reino dos céus

*
e dou testemunho de que
------------------------------( embora em vida
------------------------------dividisse águas, matasse formigas
------------------------------e enxotasse com o pé
------------------------------os cães renegados
------------------------------que abanavam a cauda
------------------------------enquanto os meninos
------------------------------comiam pipoca
------------------------------e tomavam refresco )
esse rosto entre flores
escurecido e quadriculado
como um quibe de forno
ora manifesta, sutilmente
seu arrependimento por eventuais condutas
impensadas
quando a brisa ainda fazia nexo
*
e neste exato momento
em que enceta
transmutar-se num chorume viscoso
a família suplica bom destino a sua alma
e proclama e repete
que percorreu os trilhos de Deus
*
*

E mesmo eu, que nunca cedi
à prática
de render o joelho ao chão
declaro, diante desse corpo desmilingüido
( que meus olhos evitam )
ter levado, deveras
uma vida dedicada aos desígnios celestes
vistos sejam seus filhos bem criados
redondos, corados
gerentes, risonhos, bacharéis
*
*

Aproveito o ensejo
para manifestar
a mais profunda convicção
de que
embora magro
feito um cão pelagroso
esse corpo redundará
em buano
da mais prima qualidade
*
*

E por ser eu educador
e beato
devoto da natureza
numa época de correção ambiental
sugiro que, se viável
fazei, ó bem-aventurados, reciclar esse espírito
de acordo com o laudo e sugestões
das instâncias competentes
mas
caso decidam não relevar
as inculcações
deste pecador comum, porém sensível
e deliberem vetar o acesso dessa alma
ao jardim das rosas brancas
solicito a fineza
de designarem um anjo
para acompanhá-la
à catraca do andar subjacente

*
*

Atenciosamente,
Prof. Dr. Assis de Mello, Entomólogo
*
*

ALEGORIA INFANTIL

Acrílica sobre duratex impermeabilizado
*
*
*
*
*
Ars Poetica Truncata
*
-------------------------------( Aos Martinelli, amigos de sempre
-------------------------------Com a permissão das mulheres
-------------------------------pela brincadeira )
*
*
Não se refira
a uma mulher
como poeta

----------------------diga poetisa
*
*

Deixe poeta ao marmanjo
criador da ampulheta

----------------------da baioneta
do estrondo da nau
----------------------de corveta
do ogro, do malogro
----------------------do rabo do capeta
*
*

O homem
come e deleta
chame-o poeta

*
*

----------------------A mulher martiriza
----------------------numa torre de Pisa
----------------------que seja poetisa
*
----------------------- e mesmo por ir
----------------------abilhada de brisa
*
----------------------e por ser tudo de bom
----------------------aúra-masda, pitonisa -
*
*

Além do mais
repare nisto:
*
nas noites de vento e lua cheia
em que os sininhos das varandas
reinam no desmando
*
*
----------------------/- corre, Maria
------------------------o macarrão tá queimando ! /
*
*

----------------------Mulheres...
*
*
*
*
*
Conselho de um Espantalho
Leitor de Maquiavel

*
(Para Amarene)
*
*

Pra espantar os males
que se achegaram das calhordas
faça de uma leve inconseqüência
a
sua
meta

*
*
É isso
que o imperador das hortas
quer dizer
quando espraia nas espigas
seu silêncio
de trapos
*
*

E os pardais
que se danem
nas tiriricas de um vizinho
cujo rosto não importa
*
*

ENTARDECER NO ESTÁDIO

Acrílica e têmpera sobre tela
*
*
*
*
*

Noturno
*
( Para Flávia Rocha )
*
*
1.
Mesa
cadeira
lareira
cantar
não é tudo
o que se faz
*
*
A boca
que fuma e exala
geme forte
e morde a corda
que traz a cala

*
*
Parte das horas
cai escura
como o mogno
A noite é branca
O sono tem a luz da tona
*
*
Vivemos a tangenciar
portos desertos
e ancoradouros perdidos
O resto é obra do incenso
que
sem paixão
invade a sala
como as águas esquecidas
de um mar abandonado
*
*

2.
Enquanto na superfície
destes olhos
flutuam barcos de cortiça
um diatomito se compacta
nas profundezas
das entranhas
*
*
Um leito está sendo construído
*
*
*
*
*
Entardecer no Sahel
*
*

Um arrepio de vento que passou
lonjuras de albatrozes, planícies
imensidões de orvalho...
*
- assim era ela
que se choveu pela tarde
enovelou-se na noite
enevoou a manhã
mas não ficou

*
*
Quisera
eternizar seus passos
naqueles campos de relva
mas
agora
só esta foto me resta
e por isso dobro-me
no bafo tórrido
deste lajeão de pedra
a divagar
num pôr de sol
rente às touças de carrapicho
*
*
Habita este meu viés
uma velha naja cuspideira
e pequenos nimbos de moscas
pairam
acima do arbusto espinhento
que silencia
entre o fulvo do céu
e este balão de viuvez imposta

*
*
Amadou, meu amigo Bambara
Moussou e duas inglesinhas
sorridentes
( a mais vívida é Morag; a outra
nunca soube )
ajudam-me a destocar grilos
da terra seca
e não questionam minha invalidez
*
*
Hoje sou das moscas
Gafanhotos roeram tudo por aqui

*
*
Impressiona
o olhar dos tuaregues
Olhos graves
que se destacam
das faces ocultadas
e levam corpos
que nunca param
*
*
Impressionam os perfis
de umas mulheres magras
quando se vão ao longe
vestidas de preto como se em luto

*
- carregam baldes, vitualhas na cabeça
e sorriem com polidez
quando cruzamos suas rotas
na savana ressequida
*
( Que povo é esse
de mulheres tácitas
e homens nunca vistos ? )

*
*
Os Bambara são coloridos, os Dogon
- homens e mulheres
coloridos e alegres
a trajar estampas como jardins

*
*
Possíveis cromos da fêmea numa tarde saheliana:
*
*

1-
saias longas, seios nus
mãos de couro de réptil
a socar nos pilões o amendoim
o milhete
que o inseto refugou
cantando
cantando
cantando

*
*

2-
um olhar enxuto e bondoso
o filho às costas
caminhando ao sol
sem dar um pio

*
*
3-
amamentando à sombra
cantando, cantando

*
*