sexta-feira, 6 de abril de 2007

DOM QUIXOTE

Acrílico sobre tela preparada em juta
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A Deusa do Bar

--------------------------------( Ao amigo Nordahl Christian Neptune
----------------------------------que um dia me falou de um Netuno
----------------------------------que vivia tanto no mar quanto no bar )

1
Desde a primeira vez, já fora muito mais
que pernas lisas
braços, rosto
torso com flanco tatuado
de golfinhos e sereias
ressurgindo
entre flores de narciso
símbolos da arte zen
e um espírito do flower power
sem esforço

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O cabelo aos ombros
- ímã em cauda de potra -
e mais outro filme na base do colo
induziam a um clima sutil
mas tão desesperado
que só um neurônio bem vivido
poderia vislumbrar
com nitidez

- o neon a repicar-lhe dos olhos
como estrelas gotejando
num veludo negro

*
Feito Netuno no abismo do mar
lá estava ela no fundo do bar
Reinando

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2
Na segunda vez que a encontrei
28 noites depois
continuava ali, náiade abissal
na lua-cheia
feito uma holotúria presa à rocha
ou melhor
feito duas, três anêmonas
crinóides
gorgônias
cedro enraizado
em manto de calhaus
ou qualquer outra coisa séssil
criatura que o valha
ainda que ondulasse
na turbação da madrugada


Pois conferi, naquele instante
brotar de seus dentes
um fantasma
que iluminava as solidões de cada mundo:

algo que Bosch / o velho Bruegel
haveriam de ter rabiscado
pra enigmar um canto de tela
como se fez, p. ex.
naquele ovo com pernas
a correr frugalmente
entre a sordidez de cenas medievais
repletas de gordos dormindo
multidões de desgraçados, coxos
escravos da igreja, definhados, magros
e montes de feno

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3
Na última vez
que a vi
já não estava em lugar algum
Mulheres assim não precisam de perdão
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Numa Noite Ofídia
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( Para Floriano Martins )
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A noite e seu bolor:
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deslize de terra

uma brisa omissa

a flora sufocada

o regolito exposto

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um filhote de cutia
a implorar por leite

olhos de amores
vazados na resina
arrepios esvaídos na bruma densa

uma formiga insone

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*

Nas hifas do mofo
o que resta
senão
larvas de pulga
no balaio do gato
que o carro matou ?

*
*

Mas, a manter
a rotação do ânimo
largamos a pele
invertida
na forquilha cravada num torrão de espanto

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*
( - Aleluia ! - )
e lustrosos saímos a rodar em círculos
e a morder o rabo:
*
nosso próprio rabo
- único alento
que nos consentem
*
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20 comentários:

Assis de Mello disse...

Esta tela, pintada em março de 2007, é uma nova experiência quanto ao estilo e o material. Gostei do resultado e pretendo explorar melhor a nova possibilidade.

Analuka disse...

Bonito trabalho!... Suave solidão... ponto no meio do caminho...lindo sol cereja!...imagem ambígüa: bicho vira violoncelo!... e os matizes bem escolhidos e combinados, delicados...ressoam com a sensação de solidão...suave solidão de uma procura infinda!...
Abraços.

Analuka disse...

Oi, queridíssimo amigo Assis!...
Grata pelo pólen deixado lá no blog, estes delicados prazeres fertilizam a alma dos artistas, fazendo cintilar mais suas asas... Agradeço pelo link, e, mais uma vez, por aquela mensagem magnífica que deixaste no fotoblog tempos atrás, um mini-texto dourado, delicioso!... Mandei uma mensagem por e-mail para ti, depois, recebeste?... Abraço alado multicor.

Loba disse...

Outro Assis Interessantíssimo!!!
Que bom que os caminhos da net nos uniram. Mergulhei no seu trabalho e estou encantada, moço! Particularmente com duas telas que piscaram pra mim - mas disso falo por e-mail!
Enfim, foi mesmo um grande prazer. Embora eu não entenda nada de artes plásticas, sei gostar. E gostei demais daqui, viu?
Beijãozão

Loba disse...

Que bela surpresa encontrar tantos e bons poemas! Certamente as letras só vêm acrescentar mais beleza ao que já era belo!
Queria poder agora dizer: gostei especialmente de... Mas gostei muito de tudo - por mais que isso pareça um comentario superficial, viu? rs...
Beijocas

Lau Siqueira disse...

Belo poema, tela interessantíssima... Chico, coloquei nos favoritos para voltar sempre.
Um abraço

Monalisa Melão disse...

Chico
Parabéns pelo blog
Beijão

Cláudia disse...

Chico querido,
Seu blog está tão lindo e gostoso que não dá vontade de sair daqui...
Parabéns!...
Muita Luz em seus caminhos.
Beijo!

Cláudia mineira

Ligia Boca disse...

Vc convidou a visitar seu blog e eu vim! Só pra dizer que achei fantástico... Muito bom mesmo, Chico! Já está nos meus favoritos!
Um beijo e um abraço bem apertado e saudoso!

Leila Lopes disse...

Chico, estou aqui a apreciar tuas palavras e imagens. Antes de tudo, um ar de tranquilidade paira no ar.
Deixo agora, então, o endereço do meu blog, obrigada pela visita ao In Margens.
Beijos

Analuka disse...

Chico, volto aqui para saborear tuas cores e versos, em múltiplos matizes poéticos!... e também para agradecer, de novo, pela delicadeza de teu presente. Deixo meu beijo alado, terno e translúcido.

Loba disse...

Hoje li mais um pouco! Aqui, em meio a telas e cores, os poemas são ainda mais belos, viu?
Beijão

Neli disse...

Não sou uma especialista no assunto ,mas sei admirar o que é belo(não é rasgação de seda .. é belo mesmo)tuas telas e tuas poesias são lindas...não consegui ler todas ainda.. eu volto....me perdi por aqui rss.. parabens....

Analuka disse...

Assis, coloquei umas linhas tuas lá no meu blog, junto com o convite da exposição. Abraços alados azuis!

Fernanda Passos disse...

Caramba Chico! Um dia vou conseguir escreve assim! A Deusa do Bar é simplesmente PERFEITA. A mulher notívaga que desperta desejos, alucinações. Tantas alucinações que se confunde com náiades e sereias.............
Vc é lindo POETA!
Um Beijo.

Fernanda Passos disse...

Chicoooooooo. Kd vc?
bjs..........

Fernanda Passos disse...

Ei! Esqueci de dizer que é uma honra ter meu blog linkado aqui, no meio de tantas coisas boas.


Obrigada.

Beijos.

Mariane Monteiro disse...

Experimentos. Viva a química da pintura!!!!!!!Gostei do q vi!abraços

Analuka disse...

Ainda estás pintando, Chico?...
Cá redescubro sempre de novo a magia da pintura em mim, alquimia das letras e cores misturadas em minh´alma, noites e dias!... Passo para deixar um abraço alado azul.

d'Angelo disse...

Pérolas de espanto e inusitadas alegrias no neonsense do seu surrealirismo, meu caro Chico. Que o universo conspire - todos os ventos a favor - para que você tenha tempo disponível para nos surpreender com a sua poesia!