sexta-feira, 6 de abril de 2007

SOLO DE SAX

Acrílica sobre duratex impermeabilizado
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Femina


As águas como mãe
o sorriso
como ilha

Quantos náufragos
içaram as mãos
na sede de alcançar
essa terra
resguardada por peixes
e gorgônias ?

E o que dizer das aves
das araras
juruviaras
a dançar
por sua morna
hidrografia ?


Deusa na espuma
: ei-la
a depurar a enseada
com olhos negros
da terra de Damasco


trazendo
a mais rosada
das flores de ninféia
nos cabelos
prescrevendo
eras
de mistério e enlevação


*


No escuro do sem-fim
meus olhos
criam cometas
*
*
*
*
*
Sommerfugl

( Para Lyselotte A.,
que chegou
se foi
mas ficou )

Um
mínimo
deslize
Lyse
e minha viela
violou-se
em chispas:

vagarosos búzios
a se arrastar
nos areais
de cambraia
e pele
texturas
do interior
das ostras
holotúrias túrgidas

Oh radiosa
Freya
filha de Njord
mulher de Od
e minha:
converte-me
em
falcão
com esse teu amuleto
de penas

Abandonaste a rocha
sereia do porto
de København -----------------------------------------Copenhague
para roçar-me
com tuas tranças
de sol
teus olhos de casca de mar
tua tez de pérola
juvenil

uma terrível
impetuos
( a )
idade
Viking

e um silêncio
benigno
quase penumbra
( - indecifrável
carta náutica -
puro mistério )

: eis teu belicoso
instrumental
de tortura
sommerfugl -------------------------------------------borboleta



E ainda trouxeste

pra minha gruta
de rei eremita
o aconchego
de uma casinha
verde
numa borda qualquer
da Jutlândia
com esse cheiro
de pão
exalando do forno
- grahamsbrød - ---------------------------------------- pão de grãos integrais -
e esse livro
repleto de grunhidos
sobre o criado-mudo:

drøm behageligt -----------------------------------------bons sonhos

hemmelighedsfuld ---------------------------------------cheios de mistério
måne // stjerne -----------------------------------------lua // estrela
måge // bjerg -------------------------------------------gaivota // montanha
duftende // markblomst --------------------------------cheirosa // flor silvestre
jomfruelig pige ------------------------------------------virginal menina
guldførende ---------------------------------------------que contém ouro
ildfuldhed -----------------------------------------------ardor
elsker ---------------------------------------------------amante
kødets lyst ----------------------------------------------volúpia da carne
havgudinde ---------------------------------------------deusa do mar
udstyrsstykke ------------------------------------------espetacular
ildsprudende bjerg --------------------------------------vulcão
frugtbar jord --------------------------------------------solo fértil
smøring -------------------------------------------------lubrificação
det er regnvejr ------------------------------------------está chovendo
flod -----------------------------------------------------rio
skrige ---------------------------------------------------grito
sædvæske ----------------------------------------------sêmen
stilhed --------------------------------------------------silêncio
fylde ---------------------------------------------------plenitude
havskum ----------------------------------------------espuma do mar

Vou te dizer duas coisas

radiante Lyse:
*
*
1- Ele estava errado
nunca houve nada de podre
no Reino da Dinamarca
*
*2- Estou ficando
completamente
maluco
*
*

9 comentários:

Analuka disse...

Belíssimo!

Gosto muito deste cheiro de mar, destes brilhos de pérolas, deste roçar de asas, do sabor do pão feito de grãos, da potência da paixão!...
Parece-me que cada poema (longo) teu poderia ser repartido em vários pedaços-poemas (partículas) igualmente saborosos e cintilantes...
Abraço azul-celeste-marinho.

Analuka disse...

Apreciei todos os escritos, especialmente o primeiro poema, "Femina", que soa e ressoa leve, feito asa ou espuma, pingos, respingos de estrelas...

Te convido a ler o meu novo, que postei ontem, lá no blog.

Beijos astrais.

Analuka disse...

"...No escuro do sem-fim
meus olhos
criam cometas..."

Perfeitas palavras estreladas!
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Um abraço alado num fim de tarde frio, poeta!

Analuka disse...

Voltei para saborear Summerfugl...
Belíssimo teu tecido poético, tessitura de linhas de seda e cetim cintilantes... Beijo meu, poeta Assis.

Anônimo disse...

"eis teu" (vosso) ... ?

Assis de Mello disse...

Oi Anônimo,
É "eis teu" mesmo. O poema todo está na segunda pessoa do singular.

Fernanda Passos disse...

...No escuro do sem-fim
meus olhos
criam cometas...
Chico...........indizível. Perfeito todo o poema Femina.
Você é o há! ;)

JIVM disse...

Teu Quixote me pluraliza.
JIVM

celia.musilli disse...

Muito, muito, muito lindO! Um bj!