sexta-feira, 6 de abril de 2007

ENTARDECER NO ESTÁDIO

Acrílica e têmpera sobre tela
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Noturno
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( Para Flávia Rocha )
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1.
Mesa
cadeira
lareira
cantar
não é tudo
o que se faz
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A boca
que fuma e exala
geme forte
e morde a corda
que traz a cala

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Parte das horas
cai escura
como o mogno
A noite é branca
O sono tem a luz da tona
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Vivemos a tangenciar
portos desertos
e ancoradouros perdidos
O resto é obra do incenso
que
sem paixão
invade a sala
como as águas esquecidas
de um mar abandonado
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2.
Enquanto na superfície
destes olhos
flutuam barcos de cortiça
um diatomito se compacta
nas profundezas
das entranhas
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Um leito está sendo construído
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Entardecer no Sahel
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Um arrepio de vento que passou
lonjuras de albatrozes, planícies
imensidões de orvalho...
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- assim era ela
que se choveu pela tarde
enovelou-se na noite
enevoou a manhã
mas não ficou

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*
Quisera
eternizar seus passos
naqueles campos de relva
mas
agora
só esta foto me resta
e por isso dobro-me
no bafo tórrido
deste lajeão de pedra
a divagar
num pôr de sol
rente às touças de carrapicho
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Habita este meu viés
uma velha naja cuspideira
e pequenos nimbos de moscas
pairam
acima do arbusto espinhento
que silencia
entre o fulvo do céu
e este balão de viuvez imposta

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Amadou, meu amigo Bambara
Moussou e duas inglesinhas
sorridentes
( a mais vívida é Morag; a outra
nunca soube )
ajudam-me a destocar grilos
da terra seca
e não questionam minha invalidez
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*
Hoje sou das moscas
Gafanhotos roeram tudo por aqui

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Impressiona
o olhar dos tuaregues
Olhos graves
que se destacam
das faces ocultadas
e levam corpos
que nunca param
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Impressionam os perfis
de umas mulheres magras
quando se vão ao longe
vestidas de preto como se em luto

*
- carregam baldes, vitualhas na cabeça
e sorriem com polidez
quando cruzamos suas rotas
na savana ressequida
*
( Que povo é esse
de mulheres tácitas
e homens nunca vistos ? )

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*
Os Bambara são coloridos, os Dogon
- homens e mulheres
coloridos e alegres
a trajar estampas como jardins

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Possíveis cromos da fêmea numa tarde saheliana:
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1-
saias longas, seios nus
mãos de couro de réptil
a socar nos pilões o amendoim
o milhete
que o inseto refugou
cantando
cantando
cantando

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2-
um olhar enxuto e bondoso
o filho às costas
caminhando ao sol
sem dar um pio

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3-
amamentando à sombra
cantando, cantando

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4-
publicando
um tratado sem letras
sobre as artes
de superar e de sorrir
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Oh Mourdiah, Oh Dilli, Oh Nara !
Bendito o aconchego de teus
corações
nessas casas de adobe
e estrume de cabra
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*

Benditos tuas roças
infibuladas
proibidas
o ensinamento
das brigadas fitossanitárias
as lições da locusta, suor
e guerra química
*
*

E mais que bendita a imagem
daquelas crianças rezando e batendo
latas na cabeça
numa procissão de mirrados
a implorar por chuva
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*
O Brasil e sua verdura deitam-se ao longe
além do tempo

*
( - levou ela consigo
suas imensidões de orvalho- )

*
e também o Niger
com seu delta inusitado
corre longínquo
e não há mais rios
por aqui

**
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No bafo desta pedra exangue
não há remédio:

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a vida
num cantil
de água salobra

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e o mosquedo turbina
e uma naja me espreita
despejando a noite
*
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2 comentários:

Anônimo disse...

Essa poesia é muito bonita. Talvez a mais bonita de todas. Tem um outro "olhar", você vê a mulher, vê os outros, e se expõe nela. Gostei muito. Parabéns.

Josefina disse...

Meu poeta de olhos de céu! Tu és belo e belo é teu olhar feito poema! Apaixono-me por ti à medida em que leio os versos de amor e despedida e saudade e viuvez imposta pelo acaso... ainda emocionada... J.N.Mello