sexta-feira, 6 de abril de 2007

O MALINHA

Acrílica sobre MDF impermeabilizado
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Na Mata, à Noite
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-------------------------( Aos biólogos
---------------------------e curiosos da natureza
-------------------------- saberão o que estou dizendo )
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1
A errância noturna
do urutau e das serpentes
habita também o arcabouço
e tudo o que há de envolto
pelas costelas
e os outros
ossos

está no tutano / nas gelatinas
no que pulsa e se divide
no que escoa
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2
O breu é pura caliça
por onde a carcaça vagueia
jubilosa
e a lua, sempre cândida
abrilhanta a manta verde
que antepara o escombro
e tudo e nada redime
e nada e tudo conforta
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3
Cantam bichos
no rebuliço de um ribeiro
e reverbera nos troncos
matacões

e há também estalidos de galhos
bambus que choram
rumores de meus pés
a triturar a sarapueira
e seu inquilinato
à beira do sem fim
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Outros 1.000 diabos
ouriçam criaturas ocultas
e decentes

mas tem, sobretudo
a sibilante agonia do gás
ao tentar irromper
pela barreira de amianto e lúcifer
do lampião
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4
Duas lesmas assediam
uma pétala
no fundo de uma pegada de anta
e que este culto secreto
( a alguma divindade molusca )
jamais passe desapercebido
pois
é a suprema comunhão do antigo
propalada
na coreografia do silêncio
e grafada
nas linhas cintilantes
de muco
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5
Vaga-lumes

Um macho e uma fêmea
de vaga-lumes
encenam o mistério
da multiplicação dos fogos
e ardem, imóveis
na axila de uma folha de liana
hermafrodita
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6
O bacurau ficou lá fora
Aqui recende a mijo de gato
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7
Cobras procuram ratos
Raízes sugam
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8
Não queira entender
determinadas coisas:
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Certos cogumelos
só são vistosos à noite

Mirar estrelas
é bem mais
que transformar-se
em grão
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9
Entre tantas orquídeas
uma orquídea
obcecada por um desejo
espera o sol e sua abelha
azul-metálica
tão fiel quanto os cães
de um velho cego
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Que Deusa
marchetou-me andarilho ?
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10
Errar à noite
é vasculhar
uma bolsa de mulher
madura
------------enlevar-se nos
------------perfumes
------------
e tombar perdido feito uma chave
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Fé Murina

( Ao Juca, amigo de sempre )-------------------------
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O olho na fresta
as molas
por disparar
o mundo
prestes a cair
em chinelos
vassouras

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( Tudo que almejei
na quirera
veio com a cobra e seu oco
com o gato
e seu eco
com as pulgas )

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O olho na fresta
ressecado
feito um poeta
magro
cinzento
a tossir
num terno de tísica

*
o bigode
a gerir sua esquiva de morte

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Reagir
é
velar

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O rabo
é escora

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O rabo
no chão
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2 comentários:

Clélia disse...

Oi amei seu blogger, já tinha entrado antes e visto as telas, principalmente as com motivos infantis... amei...
Agora ví os poemas....que mais vc faz com tanta sensibilidade??? Não precisa responder....

Olha aqui ...

Entre tantas orquídeas
uma orquídea
obcecada por um desejo
espera o sol e sua abelha
azul-metálica
tão fiel quanto os cães
de um velho cego
*
Que Deusa
marchetou-me andarilho ?
NA MATA, A NOITE!!

que inspiração....Lindoooooooooo!!Parabéns

Fernanda Passos disse...

Chico, O Malinha é analogia sem igual aos meus meninos...............quando apreciei a arte, me lembrei das "artes" que os dois fazem. Muita identificação.
Beijos.