sexta-feira, 6 de abril de 2007

POSSO IR BRINCAR AGORA, PAI ?

Acrílica sobre MDF revestida com cera de abelha,
coberta com tinta azul e depois raspada com formão
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A Respeito de uma Pedra
e seu Assentamento

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( Para Isabela, aracnóloga
colega de minúcias
e Raquel Naveira
poeta, aranha
fiandeira )

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O dia achatado sob teu peso
feito uma noite modular
e ilha
a umidade calada
um senso de eternidade
vermes retorcidos
na escuridão
bastilha
conchas espiraladas
------------como o tempo
crustáceos que viram bola
secreções
partilha
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O mundo no fundo : viga-mestra de seu imo
Âncora * Alavanca * Atríolo na vastidão * Arrimo
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E certas damas glaciais
que ciscam no eterno sábado
com olhos de frango------------
de granja
notam o trevo a teu lado
mas não a ti
que não trazes sorte
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e tampouco te percebem
os maridos práticos
rusticanos
que montam éguas de folha-de-flandres
e esmagam páginas de mistério
com botinas de bico de aço
e cheiram colônia, sulfato de amônia
e avaliam os porcos pelos traseiros
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Mas a mim, que perdi o traçado
e qualquer referencial
redundado em correnteza
és deuses e vertigem
sopro e pulsação
rebrota
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E a bem da verdade
só a mim e a ela
- Isabela -
interessa perceber
a demência dessa aranha
que torceu um túnel de seda
sob teu ventre
e dali, do eixo
de seu remoinho
louco
conduz um farfalho mouco
nessa fresta de silêncio
( com dois pares de pernas
apontados para o além ) :

( feito dois maestros
atados num cordão de juta
a reger uma sonata )
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Mensagem aos Pássaros do Sul
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--------------------------------------------( A Pablo Neruda )
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Outro pássaro emerge do vazio
e me desperta

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Eu, inexprimível tordo
desbotado na crosta do barro
já nem sei onde foi que embrionei-me:
se em Ushuaia ou Pucallpa
ou nas ruínas de Cuzco ou Copán
Mas sou da América
e vasculhei toda esta terra de poleiros
camuflados no verde
onde tantos nativos foram exterminados
por ouro / prata / pirita
e cem motivos de força maior
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O outro pássaro investiga meus gestos
com olhar estrangeiro
e embora não brilhe intenções
de rapina
é melhor ter cuidado nesta América austral

pois aqui
há pássaros que parasitam ninhos alheios
e também os que imitam o pio de outros pássaros
para usufruir da cortesia do bando

e muitas vezes nossos próprios pássaros
incluem em seus piados estranhas notas
de outras melodias
que solfejamos sem compreender
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Não sei se concebi-me ao sol
ou ao estouro
de um trovão de veranico
mas sejamos justos a nossos dialetos
até que uma águia nos persiga a todos
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2 comentários:

Zoe de Camaris disse...

Adorei! E roubei...(com os devidos créditos, é claro).

Analuka disse...

Este lembra um pouquinho (pois não?) o Miró!... Mas o detalhe dos postes e fios de luz está interessantíssimo!... Que céu suave no fundo destas figuras tão vibrantes! Bonito contraste.