sexta-feira, 6 de abril de 2007

REVOADA IV

Acrílico sobre tela
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Permuta
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-------------------------------------------------------------------( Para Zeinab )
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Estanquei o vento
pra colher de teus olhos
nos vãos
de meus dedos
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E agora devolvo
os pomos da alma
do sopro
dos rios
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Verdes dias

Na guarida da noite
a folhagem guarnece

e todos os peixes
desfilam pra ti
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A Quase-Harpia do Brasil de Sueste
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----------------------------------- ( Para Aziz Nacib Ab’Sáber
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geomorfólogo, mestre )
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Não
Hesíodo não mencionou a besta
dos espaços interiores da Terra Brasilis
assombração dos mares-de-morros
da depressão periférica
do planalto cristalino
embora compartilhe com as harpias
sua palidez
e o tal semblante donzel

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Seu pescoço de coruja girava 360º
pra bisbilhotar
a gatimanha
alheia
a partir do pináculo do mundo
à maneira do nariz e das garras
de um quati
quando vasculham a rama podre
na catação de larvas

e os olhos estrigídeos, esbugalhados
terríveis
do predador noturno
denunciavam as mínimas imperfeições da presa
pelo simples capricho de criar distância
e humilhação
antes do surto
de creofagia
da vomição dos guinchos
e do parto do excremento
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O olhar, em si
avançava
em ondas denunciantes
, ou melhor:
estendia-se num feixe de partículas
iguais àquelas
que desgraçaram a carcaça
de Marie Currie
sob o jaleco de algodão
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Escreveu Sérvio
(apud Borges
in “El Libro
de los Seres
Imaginarios”)
que Hécate é Prosérpina nos infernos
Diana na terra, Lua no céu
e Deusa tríplice

assim como as harpias
são medonhas fúrias
no inferno
na terra
e demônios no céu


mas essa quase-harpia a quem me refiro
vai além:
onipotente
onipresente
onisciente
habita até mesmo o cólon transverso de Hécate
a cloaca das harpias
e ali fermenta
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Homens que se renderam a seus caprichos
não souberam discernir a ogra sob as plumas
e
se escaparam
correram como loucos
com os ossos ausentes da medula
por toda aquela planície desdobrada de insônias
feito um Pierre qualquer
meio que relegado a ostra

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Tinhosa
no
alto
de
um
mourão
duma fazenda falida
a bicha-fera assiste ao pôr do sol
com o ventre imundo voltado para o leste:
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espera, sem afã
que o próximo calango-símio
germine de sua toca
nas raízes do capim-guiné
com toda a gala daquele rei da Trácia

- o incauto
soberano
que desvendou o destino
dos homens
e comprou a vida longa
ao preço
de seus olhos -
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3 comentários:

Analuka disse...

ESte poema, além de belo em suas imagens e sonoridades, delicadezas de sentidos, é também uma bonita construção visual!... Desenhas com as palavras, sobre a tela, no ar...

Sandra Baldessin disse...

Lindimais, tudo que estou lendo por aqui! Sua poesia tem um ritmo primal, me fez lembrar das danças circulares, dos meus ancestrais em volta da fogueira contando histórias.
Do que li, destaco Permuta (aliás, o título foi muito bem escolhido), um poema que tem duas das características que Calvino considera essencias na Literatura: leveza e exatidão, que também persigo.

Destaco, ainda, o poema dedicado a Lyzelotte, talvez por lembrar Freya, também personagem de alguns dos meus poemas.

Parabéns.

Zeinab disse...

Obrigada pelo poema,(lindoooo)
Me admira a facilidade e o talento que tem para usar as palavras, como se fosse uma brincadeira séria, como se fosse fácil, dizer coisas tão profundas, e que nos absorvem e encantam.
Belissímo Habib, como todo trabalho seu.