quinta-feira, 22 de maio de 2008

BLINDAGEM


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Um Olhar Sobre as Letras
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( Ao ler poemas de Cláudia Gonçalves )
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Rasgo
meu silêncio
de
sargaço
e breu
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Como aquietar-me
neste
mar
de versos mínimos
.........................se cada célula
.........................do plâncton
.........................cria seu próprio
.........................panteão ?
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Fios de encantamento
também cosem
oceanos
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O Louco Diante do Espelho
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( Para Michael McClure,
Ann Waldman e Gary Snyder )
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Estou no rastro
das noites
; busco a leveza
do óleo
e o ímpeto hormonal
do meio-dia

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É com olhos
e lentidão moluscos
que vejo o mundo
e também trago a casa às costas
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Relevo toda viscosidade
todos os géis, plasmas
; qualquer latejar é um caro amigo que tenho
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Afago a brisa e o vento
Retribuo suas carícias
quando meus pelos se eriçam
nas touceiras dos guaraxains

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e bendigo o leite da lua
que se derrama sobre a flora
que penetra na solidão ondulante do mar
que reluz, concentrado, na superfície limosa da turfa

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Já paraste num acidente da paisagem
pra sentir nesses átimos
teu próprio respiro ?
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pois então... diz-me quem sou
que
dessas coisas
me nutro
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Nunca deixei de enaltecer o leite
das fêmeas
o leite que veio do leite do macho
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e sempre há, ao longo das trilhas
um lagarto verde
que me acena
co’a cauda

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Sou também sensível ao tempo
e ao tato
feito uma planária na planície
ou uma pequena elevação
de tecido erétil
encravado no vértice
de um pequeno fiorde
logo ao norte de Kristiansund
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daí
encrespo-me ao vento
, como disse

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E não sou homem de bares
Cultivo um mar de samambaias sob a pele
um mar de avencas
e bons presságios
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e por mais que migrem os pássaros
as batuíras sempre retornam a mim
pois sou homem de amar

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Já desfiei tramas densas de sisal e ódio
mas clareio as olheiras
dos que minguam na sombra

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; destilo iras
e devolvo alento
Retorno afeição

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Há quem me veja
como o louco na torre
o doidão na bastilha
( Mas também não se vive de ilha ? )
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Silêncios também me sustentam
: mesmo mortos
os escribas de Hamurabi
os grão-vizires
Bach e o tropel dos hunos
ressoam
em minhas manhãs

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Prefiro ter-me
como o airado aéreo das amplidões
, aquele a quem
as antigas bruxas
cantam e cavoucam a terra
dando forma a meus jardins
Tenho brisa perfumada
no alvorecer

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E tu
que ora me fitas nos olhos
e súbito baixas a guarda
quando me desligo
pra elaborar um pensamento
, como é que tu me estimas ?
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O que dizes
das qualificações que recebo
dos robôs cartesianos
que passam a vida
repetindo tarefas
e
etiquetando latas ?

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De que vale
semear relógios ?

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Esta compulsão
ao pentear a barba
me traz alívio
momentâneo
Portanto sou feliz
e abraço o mundo
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e nunca vi galinhas
a desprezar insetos
nem porcos um banho de lama
então repito que sou feliz
e abraço o mundo
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Na estação das águas
contemplo os canteiros das bruxas
; no estio
retiro os camarões das tocas
- eis de onde vem minha extrema felicidade
em abraçar o mundo

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Eis de onde vem
o primeiro cio das potras
a paisagem em semi-tons
e o olvidar constante

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6 comentários:

Elaine disse...

adorei seu blog. os poemas e as fotos e o clima.
as fotos também são suas?
beijos

Rita Costa disse...

Belíssimo! Tanto a imagem quanto os poemas.

Parabéns! Um abraço.

LAU SIQUEIRA disse...

Fui um pouco mais além e li muitas outras coisas. Palavras exatas buscando o infinito... gostei muito!
Um grande abraço!
Lau

Clauky Saba disse...

fala chico!
curti o blog
as pinturas figurativas do meio pro fim do blog são uma viagem.... aquela técnica com cera de abelha e tal... muito louco e com efeito surpreendente

poetabraços


clauky

Madalena Barranco disse...

Olá Chico, muito prazer.

Obrigada pelo convite no orkut e por me convidar igualmente a conhecer seu blog. Que encanto de poeta contemporâneo, direto e original você é! Gosto desse estilo que preenche a tela e me faz querer ler o poema até o fim, ao mesmo tempo em que entrevejo suaves metáforas... Adorei! Seus desenhos também são bonitos - não sei porque mas me identifiquei mais com "Beija flor" e "Enigmas".

Um grande abraço - indicarei seu blog em meu menu à esquerda setor "Dicas", para que meus amigos também possam se deliciar com sua arte.

Kátia Torres disse...

"Nunca deixei de enaltecer o leite
das fêmeas
o leite que veio do leite do macho"

É difícil escolher, neste poema, a melhor passagem, ou o trecho que mais se gostou.Se tivesse que faze isso, era como se dividisse Chico. Chico não é para ser dividido. É único!

Bj, da Katita.