terça-feira, 23 de setembro de 2008

ROTINA


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TRÊS POEMAS PARA PAUL CELAN
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Disjunção
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Às vezes começo a lembrar
daquilo que sugere
uma certa tarde nas dunas
de abóbadas alaranjadas
num fim de tarde
------------------com pombos
------------------e folhas arrastadas
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de manhãs de sol com crianças
------------------lambuzadas de frutas
e de uns estalidos de velhos que mascam a língua
sob o chapéu
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De repente tudo pára
:
uma senhora
( um gato )
atravessa
o pátio
sem qualquer cerimônia
e arremessa minhas visões
para nenhures
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para além
-----------de
-----------um
-----------poço
-----------cavado
-----------jamais

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Apnéia
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A tarde acorrentada
a um cano de torneira
e a noite mouca
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À manhã
nem me ouso referir
: a claridade ofusca
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Uma dama sentada à sombra
embala o vento que me foi roubado
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O Louco
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( Dedicado também a Michel Foucault )
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... e vagava
pela medula da própria alma
exilado
corporificado em água e polpa
como as entranhas de um coco
que se encarceram
na fibrosa intransigência
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Nos bolsos
pensamentos ferviam-lhe
como besouros no guano
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idéias vertiam
dos canais lacrimais pródigos em vida

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e, se no escuro
tinha consciência
das próprias pústulas
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no claro
era branco como giz

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Talvez soubesse das coisas
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Talvez guardasse a chave
das grandes verdades
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pois enquanto muitos se mataram
na larica de viver
---------------ele banqueteou
em seu casulo de fibra
sem ter que se morrer
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e nos dias úteis da semana
quando as pulgas se vestiam de gala
e entoavam recitais com pompa de barão
ele dançava [ mas não ouvia ]
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E ria

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13 comentários:

Madalena Barranco disse...

Olá Chico.

Sua poesia me encanta pela mensagem e originalidade..

Beijos.

Lívio disse...

Chico, o título para a foto do pipoqueiro ficou muito bacana. E parabéns pelos poemas também.

Cáh Morandi disse...

Belissimo blog: poesias e imagens. Beijos.

Cáh Morandi disse...

Belissimo blog: poesias e imagens. Beijos.

Crisfonseca disse...

Lindas as poesias.
Tua escrita é fabulosa.
Aprecio muito e muito as tuas poesias.
Teu blog é belo
Beijos,
Cris

d'Angelo disse...

Qualquer semelhança com o velho Chico que percorre as Gerais não é coincidência: palavras que matam a sede, que levam a um mar de beleza. Belo blog, poesias idem. Abraços.

f@ disse...

Gostei mto das 3... mas O LOUCO ... mto mesmo
No claro do giz branco... com que desenhava o riso...
Chave invisível para abrir as portas de tantas atitudes certinhas mas + parecem loucura...
beijinhos das nuvens

Mara faturi disse...

Chico,

que poemas mais lindos;impossível adjetivar...não tenho palavra alguma que possa descrever o meu encantamento...
estava com saudades de teus escritos caríssimo,
grande abraço!

Maria Clara Pimenta disse...

Olá Assis de Mello,

fiquei encantada com os seus versos: quanta plasticidade, beleza, originalidade...
adorei!!!

Deixei também um comentário lá no blog da HF, e visitarei mais vezes esse manancial de múltiplas linguagens que formam o "Coisas do Chico".

Abraços,

Maria Clara.

Graça Pires disse...

Obrigada pela visita e pelas palavras deixadas no meu "Ortografia". Visitarei este seu espaço.
Um abraço.

Barone disse...

Maravilhosos, os três poemas.

Cristiana Fonseca disse...

Belíssimas palavras.
Teus poemas são fantásticos.
Saudades em ve-lo em meu blog, quando puderes vá por lá
Beijos,
Cris

Eliana Mara disse...

Chico,
pra comentar, a altura, tem que ter leitura demorada, leitura dedicada.
Gostar de poemas é uma coisa.
Ler poemas e querer copiá-los, querer citá-los, no meu caso, é diferente: é porque quero um grifo sobre o que leio, grifo como marca da minha passagem, da minha insistência nas palavras do outro. Neste caso, tua poesia me pede grifos. E retornos.

Beijos