quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

TURBULÊNCIA

*
*
*
*
*
*
Lubby
*
( Um poema de amor
à memória de um pastor
que realmente pregou a humildade )
*
( Para Luisa Mell )


*

*
Na verdade
meu cão
não é um ente distinto

*
-------------ele está em algum ponto
-------------do gradiente
-------------da variabilidade humana

*
----------------------------e certamente
----------------------------entre os melhores
----------------------------de todos os nascidos

*
-------------- pela extremidade mais nobre
da corda
*
*

E só uso o termo "cão"
por ser ele por demais perfeito
e os humanos
foram feitos à imagem e semelhança
de deus
*
; ele não vindica nada
que não vital
e não reclama tal insanidade
*
*
Há vermes
que insistem em dizer-me
que morreu, pois teve câncer
*

-------------mas sinto-o aqui
----------------------------agora
---------------------------------e a qualquer hora
por isso deixo os verbos no presente
*
*

Seus olhos, seu olhar
profundo e bondoso
estão aqui ao meu lado
no rizoma desta noite
cravada em névoa
*
pedem um afago
um carinho na cabeça
*
pedem aquilo que haveria
de apascentar o mundo
*
aquilo que haveria
de dissuadir Pizarro
de sangrar a cordilheira
*
aquilo que poderia
apartar o apartheid
*
o massacre em Gaza
*
a demência do terceiro reich

-------------e as bombas
-------------no Japão
*
*

Dou-lhe o alento
do cafuné
que seus olhos pedem
*
que seu focinho insinua
quando se mete
sob minha mão
*
e adoça o tempo
*
*
Ele está aqui ao meu lado
Ele é um bom menino
Ele me ajuda a cuidar
-------------dos filhotes abandonados
-------------que trago da rua
*
*

Ele os lambe
e os carrega na boca
*
*
Ele acha que os dentes
são só pra comer
e carregar filhotes
*
carregar filhotes
e trazer de volta
a bolinha
de borracha

pra que eu a relance
sobre o gramado dos puros
*
*
Ele me faz mais simples
Ele apontou-me a miséria dos homens
com seu olhar de simplicidade

*
então afago-o
com todo o carinho do mundo
*
*
Ele teve câncer
em sua excelsa mandíbula
de carregar filhotes
*
e aqui está
no rizoma desta noite
nevoenta
a meter o focinho
entre as diástoles // sístoles
pra me confortar
*
*
Se me levanto
ele acompanha com os olhos
*
Quando me sento
ele se achega ao lado
*
*
Ele ficou doente
Ele açucara o tempo
*
e eu me fecho
a qualquer desses helmintos
vagabundos
que afloram da merda
pra dizer
que
enlouqueci
*
*
*

37 comentários:

Pavitra disse...


achei lindo e perturbardor
triste e contundente
verdadeiro
sobretudo, achei seu sentimento
me tocando a alma
através dos olhos...

Lou disse...

Belo texto, meu caro! Por vezes, só a loucura salva. Abçs

Dona Sra. Urtigão disse...

Li, me emocionei, reli. Sem palavras para comentar.

BlueVelvet disse...

Li, fiquei de olhos rasos de àgua.
Aconteceu-me o mesmo há 2 anos e a dor é a mesma.
Só não soube pô-la em palavras tão belas.
Um abraço

Hercília Fernandes disse...

Forte, singelo, verdadeiro...

Temos tanto a aprender com os outros animais, os que são ditos irracionais(?)...

Seu texto esteticamente nos comove. Alerta-nos.

Abraço caloroso Assis,

Hercília F.

nydia bonetti disse...

Cheguei aqui por acaso e me deparo com este poema de fazer chorar coração. Lindo.
Sem palavras.
Abraços
Nydia

d'Angelo disse...

Um texto em que, mais do que a habitual beleza de sua literatura, transbordam amores e verdades irrefutáveis. Só resta reverenciar você, Chico, e enxugar os olhos.

A Moni. disse...

Lindo e sensível.
Esse era o sentimento que deveria contaminar...

...Nós ainda temos tanto o que aprender com eles...

Parabéns pelo blog!

valéria tarelho disse...

que bela homenagem, Chico! latente, estonteante, de um amor que só os loucos entendem.

chorei ;/

Graça Pires disse...

É de enlouquecer comoventemente.
Um beijo Chico.

Dona Sra. Urtigão disse...

Voltei já mais vezes. Sempre um forte impacto nas emoções. É esta a função da poesia, da arte?
Reli agora percebendo distintamente, ouvindo a sonoridade das palavras e dos versos, e pelo sentido (das palavras e dos versos), sentindo o que descrevem, eu imaginando...
Encontro aqui a lucidez absoluta associada a clareza de genios, no uso da palavra como expressão de sentimento e razão.
Senti inveja. Não, o que senti foi pena de mim por não ser capaz...
Abraço.

d'Angelo disse...

A exemplo da Dona Sra. Urtigão, já perdi a conta de quantas vezes reli seu texto, de quantas vezes chorei diante dele. "Ele apontou-me a miséria dos homens
com seu olhar de simplicidade" - o que podemos nós ante este argumento dócil e sem palavras, nós mesquinhos, arrogantes, pretensiosos e beligerantes, que criamos um deus à nossa imagem e semelhança com nossos piores instintos e rancores?

ADRIANO NUNES disse...

Chico,

Obrigado pela visita e pelas palavras! Assim como você, sou da área de Saúde. Sou médico e poeta. Vivo nesse duelo eterno entre minhas paixões.
Que bom que tenha gostado da entrevista!
Virei outras vezes aqui sim e também colocarei o seu link em meu blog.

Abraço forte!
Adriano Nunes.

Mariana disse...

Chico,

Vim retribuir a visita e me encanto com sua casa! Lindos poemas tem tu, aqui.

estou te linkando, também.

abraço.

nina rizzi disse...

nossa, que lirismo. que acidez doce. amei tudo isso :)

obrigada pela visita e pelas palavras. nos "veremos". saiba disso.
beijo :)

Adriana disse...

Nossa! Comovente, verdadeiro, lírico, perturbador, enfim, um poema que deixa lágrimas na alma. Beijo.

BAR DO BARDO disse...

cANTO ASPIRANDO AO FRANCISCANATO.

Kátia Torres disse...

Chico, seu texto e estilo são muito bons. A essência, o conteúdo e a sensibilidade o tornam raro, fora a irreverência marcante, que o tornam inconfundível e superior.

Este é o Chico, este é o homem.

Bradd... muito Bradd...

Bj bj bj.

k.

Barone disse...

Maravilhoso.

betina moraes disse...

as "coisas do chico" são ótimas!

os poemas muito bem ditos,

gostei bastante, farei outras leituras,

grande abraço!

Anônimo disse...

gratíssima surpresa encontrar seu blog nas voltas de dentro de seo google, chico. parabéns pela página e muitos pela poesia. se me permite, já estendi um link para a minha humilde 'central vermelha e branca' tbm. qdo puder, apareça por lá. vc será muito bem-vindo. abs. jeff

www.aplenospulmoesss.zip.net

f@ disse...

Ele vive sempre e ti...
sabemos que os animais nunca morrem... e sabemos tb do carinho e fidelidade e terno das lambidelas...
doces que a memória guarda...

Beijinhos das nuvens

Miguel Barroso disse...

Pungente. Bom, mesmo.



Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO

Vieira Calado disse...

Há cães melhores que pessoas.

Um forte abraço.

Adriana disse...

Há harmonia em nós, postei sobre meu cão tbm.Ele não está doente, mas envelhecendo.Há solidão nos olhos dos cães, sinto-a em mim mesma.Teu poema é triste, e denso.

Carol Flor disse...

iupeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
comentei
amoooooooooooooooooo
bjos e luz
Bru

Paulo Robson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
kelen disse...

esses seus escritos são um bálsamo para as minhas insanidades

beijo grande

Paulo Robson disse...

Chico, também perdi a minha Tita; sei o que é isso.
Parabéns pelas fotos, pelas telas (belíssimas). Os poemas são melodiosos, encantam. Voltarei para ler todos.

Rodrigo M. Freire disse...

Pega, Lubby! Pega, Lubby!
Bom.

Compulsão Diária disse...

Nas coisas de chico encontro coisas minha. Diante dos meus gatos quantas vezes sinto pena porque eles não falam. Será que é melhor assim?
Esse cão mete o focinho no verbo e fala latindo imagens de lobo que uiva pra lua!

RAQUEL CRUSOÉ disse...

Chico,

naveguei por seus mares e me encantei com tudo o que ví e sentí.A sua sutileza poética, o seu talento plástico a sua carismática figura e o seu amor pela vida.

Parabéns meu amigo Chico, sou novata em blogs mas muito vivida em emoções. Amei este espaço que com certeza farei meu de agora em diante, se assim você o permitir.

Um grande abraço,

Raquel Crusoé

Mathilde disse...

Só quem sofre a perda de um amor incondicional,consegue sentir ess poesia que me levou às lágrimas por já haver passado algumas vezes por essa mesma experiencia.
Beijos amigo, muita paz...
Mathilde Taussig

Benny Franklin disse...

Chico!

Obrigado pelo registro.

Sua poética é rara.

Agora: Mude o link que aponta para o o poema cascas de êxtase - postado no Overmundo - para esse link http://www.overmundo.com.br/banco/cascas-de-extase

Valeu, mestre!

gabriela rocha martins disse...

simples mente

brilhante



.
um beijo

Clarinha disse...

Que lindo poema!!!
Nossos cães são nossos companheiros, amigos, parceiros, confidentes... Amo os animais, e pelo visto vc tb!!!!
Muito lindo, emocionante!!!
Um beijo
obrigada pela visita em nosso blog.
beijos
amélia Clarinha

Pássaro disse...

Caro Chico, toda as palavras estão imbuídas de ternura e saudade, têm melancolia e a exaltação do que é bom e puro, levando-nos a ver o que é ser vivo.

Obrigado pelo momento...

Abraço