terça-feira, 22 de setembro de 2009

DENISE EMMER


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A Revista Capitu publicou, recentemente, uma entrevista- precedida de uma bela introdução- com a poeta Denise Emmer, vencedora do Prêmio ABL de poesia com seu livro "Lampadário". Além de grande amiga, Denise é minha mestra em assuntos poéticos, esquisitos e surreais. Transcrevo, abaixo, a oportuníssima matéria da Capitu.
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A Poesia é a Religião da Humanidade
“Não traço dores tampouco alegrias / Antes sorria agora sou um livro”
Poeta, ficcionista, física, musicista

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Denise é o silêncio. De uma varanda sobre o mar, observa o movimento do mundo. Imagina multidões que não existem e lê poemas para avenidas vazias. Ela encaixa seu violoncelo em seu corpo como um ser tão íntimo e toca o prelúdio da primeira suíte de Bach no alto de uma montanha. Seus olhos escuros me falam de poemas que resumem a noite e os sonâmbulos corsários. Esconde-se. Veste um disfarce de aventura, mas no fundo é o segredo. Ama em segredo. Toca para os pássaros. Escreve para os solitários.
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A poeta Denise Emmer escreveu 14 livros e recebeu diversos prêmios. A sua obra mais recente, Lampadário (7Letras, 2008), foi dado o prêmio ABL de Poesia. Lampadário traz uma poesia que trata do amor, da morte, do tempo — temas universais, problemas existenciais fundamentais do ser humano — com tal poesia de frase exata, imagem contundente, sensualidade de tato e movimento. Desde o princípio e no decorrer de sua produção, a qualidade de sua literatura tem sido referendada por críticos como Raquel de Queiroz, Ivan Junqueira, Nelson Werneck, Alexei Bueno (que escreveu o prefácio do livro citado), entre outros. Em entrevista à Capitu, Denise fala da motivação a escrever poesia, sobre suas influências e temas. “Se ao lermos um poema este não nos causa surpresa, assombro ou mesmo calafrios, é porque estamos frente a um texto banal”.
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O que queremos dizer com a frase exata? No poema Mulheres que enterram filhos, temos um exemplo. A definição. Mulheres que enterram filhos / Invertem o curso dos rios. O que queremos dizer com a imagem contundente? Os versos seguem: (...) Deságuam o mar em regatos / (...) Maçãs retornando à árvore / Tropeços da gravidade. A definição, a imagem: Mulheres que enterram filhos / (...) Instauram o não previsto / E deixam pequenos cristos.
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Penso que a força de todos os versos, a contundência da imagem e a exatidão da frase, estão no fato de que as palavras trabalham com referências culturais nossas. Não sei qual curso os versos seguem na sua mente, mas em mim os rios retornando aos regatos me traz imediato a figura de uma pororoca inversa, o Amazonas implodindo as margens de suas ramificações menores. A maçã que contraria às leis da física, a menção ao conceito de gravidade, não serve de alusão à anedota científica mais conhecida, a de Newton? Assim mulheres que tem seus filhos mortos são elas próprias contradições da suposta lógica da vida, crítica à razão simplória. Por fim, “pequenos cristos” traz todo um conteúdo religioso que sabemos de cor — só que qual o efeito de aplicar a Via Crúcis, a morte prematura, a uma criança?
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Embora a análise acima seja muito pessoal e impressionista, creio que indica o potencial da poesia de Denise. Que queremos dizer com sensualidade, tato, movimento? Em Imagino, se lê: Imagino línguas de cães em meu vestido / Tocas meu corpo como se quebrasse um vidro — não há na ideia de “língua de cães” textura, aspereza, umidade, certo afeto, certo nojo, viscosidade, ansiedade? Podemos alcançar essas ou outras sensações. “Como se quebrasse um vidro” não possui movimento, o golpe, a quebra, o estilhaço, o som, os fragmentos que caem, além da ideia de fragilidade contra força? E todos esses conceitos são possíveis e são vistos em interligação com os anteriores. O resultado é que a imagem poética se constrói de forma profunda,, em várias dimensões.
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Isso não é o bastante para explicar a poesia de Denise, mas nos serve de introdução.
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Além de escritora, Denise é graduada em Física e Música — o que pode parecer paradoxal à primeira vista, sendo as disciplinas exatas lembradas pela sua definição, determinação, e as humanas o reduto da multiplicidade de interpretações. Mas a oposição é verdadeira? A autora de Lampadário nos demonstrará que o impulso criativo de ambas é compartilhado, é o mesmo.
Como musicista, lançou sete álbuns. O primeiro, Alouette (1980), vendeu mais de 300 mil cópias e premiou a artista com o Disco de Ouro. Compôs para trilhas sonoras de novelas globais. Musicou poemas de Junqueira, assim como poetas dos séculos 15 e 16. No site Palavrarte, há um guia de toda a produção de Denise. (baixe aqui o álbum Canto Lunar [a artista permitiu que divulgássemos o link]; assista, no Youtube, a apresentações dela com sua banda; ouça Mapa das Horas, o álbum mais recente).
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A escritora também tem um blog, no qual se pode ler sua poesia, inclusive alguns poemas de Lampadário.
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Abaixo, a entrevista.
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Entrevista
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Capitu — Você está tratando de temas que persegue, digamos, racionalmente, (como o poeta Pádua Fernandes, que entrevistei, parece fazer) ou cria poesias a partir das respostas que não têm daquilo que sente (como se poderia dizer que Clarice Lispector faz)?
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Denise Emmer — Creio que me incluo no segundo caso. O vicio de buscar respostas para o que desperta espanto e perplexidade me induz a um movimento essencial, onde os sentimentos e a verdade são as grandes motivações. Sem verdade não há arte que sobreviva, e nela encerra-se o sentimento real das coisas, o sentimento do mundo de Drummond. Logo, não me considero racional, mas emocional, sem deixar que a emoção me leve a um transbordamento caudaloso.
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Capitu — Você é graduada em Física e Música. Não são disciplinas distantes? Como se explica essa diferença de gostos (exatas/humanas), como se vai daí até a poesia e — que tipo de influência a poesia recebe dessas duas áreas (já que toda ciência inclui uma visão de mundo)?
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Denise — A Física está intimamente ligada à música. Se eu partir para uma definição física da música, diria que são ondas que se propagam no espaço... ou mesmo que é a forma matemática de fazer melodias. A execução de uma partitura depende da decodificação de frações matemáticas, compasso por compasso. Entretanto, prefiro me afastar da dedução exata dos fenômenos, o que seria simplista, e aproximar-me do conceito de música como manifestação de arte pura, e aí entra a poesia, que, para mim, é a música da linguagem na sua máxima expressão. A influência que a poesia recebe das duas áreas é a da criação imaginativa sem a qual não se produz qualquer obra de arte. E, sem querer ser banal, a ciência reflete o mundo da natureza que foi criado por um Ser maior, e a arte é a expressão desse mundo criada pelo homem.
Bem, quanto a minha escolha pela Física, foi conseqüência de uma inquietação interna. A curiosidade pretensiosamente juvenil de desvendar mistérios insolúveis, e também um encantamento pelo universo que me cerca. Daí, creio eu, a ligação com a poesia, que , segundo a resposta acima já explica, vem da perplexidade e da angustia do estar no mundo.
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Capitu — Isso me leva a uma curiosidade? No que afinal você trabalha? Você vive de escrever mesmo?
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Denise — Logo que me formei em Física trabalhei na área de pesquisa em energia solar. Hoje, sou professora de música e violoncelista. Dou aula de percepção e violoncelo. Infelizmente não dá para viver de poesia. Mas, até que gostaria muito.
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Capitu — Acredito que Cecília Meirelles — pela relação com o fim e a morte — e Hilda Hilst — pela visão sensual e algo desesperançada (ou amarga ou outra palavra) do amor — são influências suas. Isso é verdade? Quais escritores, músicos, artistas, cineastas tiveram impacto na sua produção poética? Como esse impacto se dá?
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Denise — A poesia de Cecília Meireles, inspirada em alto misticismo, tem raízes simbolistas, e assim como Verlaine, recorre a um acento penumbroso e esvaído. Creio pertencer a essa categoria de poetas que trazem às suas matizes a fugacidade da vida, o fim redutor das coisas ao nada e a ausência. Ao mesmo tempo, como os simbolistas (e principalmente Cruz e Souza) a musicalidade de meus poemas não é mera coincidência, escrevo-os como se tocasse um instrumento. Pois, para mim, há musica nas palavras e acordes nos versos. Quanto à desesperança amorosa de Hilda Hilst, vejo como um tema universal tratado de formas variáveis, e que admito estar presente em minha poesia.
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Os escritores que me influenciaram, ou melhor dizendo, que me transportaram a um mundo novo, são muitos: Cecília Meireles (que li ainda menina), Drummond, Cruz e Souza, João Cabral, Rimbaud, Dylan Thomas, Rilke e tantos outros. Os Romancistas: Machado de Assis, Graciliano Ramos,Clarice Lispector,Miguel de Cervantes Saavedra, Thomas Mann..., Dos vivos, prefiro me abster da resposta, pois certamente me esquecerei de alguns. Na música, Bach foi o meu formador quando iniciei os estudos de piano. Mas, fico também com Beethoven, Mozart, Haydn (pelos quartetos de corda), Fauré, Saint-Saëns e Villa Lobos. Dos vivos, cito o genial Elomar Figueira de Mello que é certamente um dos grandes compositores brasileiros.
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Capitu — A orelha do livro me diz que seus temas são "o amor, a morte, o tempo, o sonho". Parece-me que a dialética entre todos esses conceitos é entre ausência e a presença fugaz, que dura pouco. Quer dizer, a falta das coisas e a posse das coisas ou a vivência do instante que é efêmera. Isso pode ser dito? O que você tem a dizer sobre esses quatro temas declarados e a minha hipótese?
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Denise — Digo que não estou apresentando qualquer novidade, uma vez que esses quatro temas são recorrentes e perseguidos por toda a humanidade em seu pequeno ciclo de existência. A discussão seria de como escrevê-los sem cair na mesmice, ou na repetição de fórmulas já exploradas. A dialética entre ausência e presença fugaz, leva a uma lírica do mistério. E o que seria a poesia sem o mistério ou o espanto? Falar sobre o amor e a morte, ou claro/escuro, a posse e a fugacidade, todos os poetas (mesmo os não metafísicos, dos temas prosaicos) sempre estarão falando. A questão é inventar uma nova forma de dizer, trazer uma nova dicção com imaginação e singularidade. Creio que na criação poética está implícita uma parcela de estranhamento e misticismo. Se ao lermos um poema, este não nos causar surpresa, assombro ou até mesmo calafrios, é porque estamos diante de um texto banal. E finalizo, portanto, com uma citação do grande poeta alemão Novalis: “a poesia é a religião da humanidade."
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7 comentários:

Adriana Godoy disse...

Chico, excelente entrevista. A resposta última à questão da poesia é realmente pertinente e sábia. Gostei. beijo.

Wilson Torres Nanini disse...

Uma poeta exuberante! Merecedora de prêmios e aplausos... Gostei do que li e gostei de a ter descoberto! Abraços!!!

Batom e poesias disse...

"Se ao lermos um poema, este não nos causar surpresa, assombro ou até mesmo calafrios, é porque estamos diante de um texto banal."

Fantástica!

Saudades dos teus poemas que sempre me causa essas sensações citadas aí em cima, amigo Chico.
bjs

Analuka disse...

Excelente postagem, caríssimo Chico Assis!!! Estava com saudades de passear por aqui, e foi uma grata surpresa encontrar este texto, e entrevista. Deixo abraços alados azuis para ti, amigo.

d'Angelo disse...

Ótima a matéria sobre a estelar Denise Emmer. E linda, muita linda essa foto sua, sem chapéu, Chico - inveja é coisa feia, mas esse retrato eu gostaria de ter feito. Abraços.

cristinasiqueira disse...

Oi Chico,

Realmente um presente a preciosa poética de Denise Emmer.
A coluna da direita é justa referência a você ,a poesia e a este espaço de tons e versos.

Com admiração,

Cris

Chris disse...

Poesiatudo...