sexta-feira, 6 de abril de 2007

CENAS DA INFÂNCIA

Acrílica sobre tela
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Reza Antiga
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Penso em ti e a madrugada se arrepia
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Preparo o peito
para a espera de teu rosto
-------------como um lobo
que sozinho
ao entardecer
vislumbra a prata na ereção da lua
-------------( íntima e mágica
-------------ainda que intangível )
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Despojo-me do supérfluo
e sinto o hálito de meu próprio almíscar
: halo que envolve o cão
brotado do enlevo túrgido do macho

-------------volátil
à imagem lúbrica da fêmea
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Suplico a Gaia por teu corpo serpentino-
desgarra, Mãe
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a corça negra do rebanho
no breu da noite
-------------traz-me a caça, oh Cornífero !
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Vejo que a vida é gastar-me em teu calor
-------------rolar na relva
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no néctar de tua flor
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e então correr o campo, sem pudor
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Os Espaços da Casa
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( Ao poeta Manoel de Barros )
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Há nesta casa muito espaço não preenchido
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Meus cães brincam à toa
uivam e ladram ao bel-prazer
mas com hora certa pra cada coisa

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Nunca vou compreender
como um fantasma inglês
de guarda-chuva e colete
baixou no corpo de meus cães

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Há tanta indagação pela casa...
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Meus peixes também questionam
no azul-da-prússia:
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são Nijinskis do remoinho d’água
do confinamento, das borbulhas
Vêm à tona avaliar meu cheiro
( e a possibilidade do motivo ser outro
traz-me a dimensão das lacunas da casa )

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Meus pássaros, cidadãos do mundo:
Pavarottis, Bidus, Caballés
Nureievs do viveiro
( cujo fundo ressuscita Pollock
na sua obstinada procura
de si mesmo )
e sei que os minutos seriam infindáveis
não fosse a arte
de meus pássaros

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Uma corruíra fez ninho na varanda
Ela também interroga
mas não demonstra
Move com graça
e astúcia
pelos caibros, orifícios
caçando aranhas ensimesmadas
que sonham a vida inteira

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Beija-flores pairam nos bebedouros
pois nem tudo é doce por essa vida afora

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Chopins, rolinhas e pardais
dividem as sementes do santo dia
nos cochos espalhados no quintal

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Contudo, ainda há brechas pela casa-
nichos vagos, ranhuras, nesgas
onde só idéias se comprimem

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Bem podia Manoel
poeta do nada e das minúcias
ver as formigas do jardim
a domar seu universo sigiloso:

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erguem vulcanitos
na terra carminada
e marcham organizadas
atávicas
e cogitam

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Já terminei namoro por causa delas
Matar formigas é pior que traição

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Há muita vida na casa
deveras
e mesmo assim ela é um queijo suíço-
império de grotas, labirinto d’ocos
onde se aninha
o lebréu das fantasias
o celacanto das quimeras
o grou da circunspecção
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Mundo das noções-
isto é minha casa !
Aqui, até as samambaias ponderam

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O alpendre é a biblioteca
cheia de vasos com plantas refletindo
tramando cenas, deduzindo fórmulas

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Nas manhãs de sol
borboletas rolam o planeta
qual besouros nobres e pueris

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Quando a noite se despenca
alheia a tudo
sou preso em pensamentos
tão viris
quanto a lança tesa
dum feroz guerreiro banto

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Então dobro-me
na meia-luz
e vejo um par de olhos
amendoados
profano-sacros
delineados de negro

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e depois
cílios lambidos de rímel
lábios entreabertos, de batom
púbis, ventres, quadris

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e o hálito raro
de anis
brotado da língua morna
dos dentes alvos
que ressaltam na penumbra
e dardejam
e flamejam
e desafiam

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E, por fim
as curvas sigmóides
meias-taças
colinas, branduras de cetim-

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A benta essência
da Deusa-Lua dos antigos
crescente enigma:

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o ser contido que de repente se escancara
o ser infindo que gera e nutre e engendra o eterno
o ser que desanda em sangue
quando se doa e não concebe
e aponta o norte na trilha cega do silêncio

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Mulher !
Nada além do arquejo
de roubar da noite uma mulher

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Que seja a tíbia dona imaginada
( musa do poente sórdido )
que nunca se revela por inteiro

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ou a pálida ninfa
galhofeira
que deixa apenas se entrever
( a duras penas )
a menear-se nas touceiras
da jornada

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mas que, súbita
entrega-se da forma mais exígua
e então se vai embora
levando consigo a sustentação
do império

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Sim, minha casa tem hiatos
na noite arguta

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A fauna e a flora
respeitam essa calada

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Nenhum latido, nenhum pio
irrompe nesse fado

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Talvez intuam
que é solidão contemplativa
ermo de arroubos
conquanto não quisera sê-lo:
o cio vil
e sem recato
do gênero mais rude

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Essas noites caducam
sem destino ou nexo:
grenha fugaz
da proibida amante
a roçar, por um minuto delirante
o rosto vincado de um marujo
subalterno

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Finda a treva
e desde sempre, a corruíra
ressurge:

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adentra-me os ouvidos
vasculha
as cavas mais internas
atrás de grilos e esperanças
naufragadas

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Ao primeiro
chilro
o novo dia sai do útero
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2 comentários:

Raquel Mendonça disse...

Desequilibrante... muito bom!
Parabéns pelo blog, adoeri sua poesia e suas pinturas.
Sou apaixonada por Manoel de Barros.
A tela é a cara dele!
Abraços

christianecrd disse...

Olá!
Obrigada pela visita!!! Também achei bem legal conhecer outro biólogo poeta, pintor... Por sinal, adorei todas as poesias que li e os quadros! Muito legal!
Sucesso!